A melhor parte de fotografar

Qual é a melhor parte de fotografar? Esta pergunta veio-me à mente com alguma naturalidade, depois de mais uma visita da minha sobrinha de três anos – quase quatro: completa-os no dia 13 – ao meu bureau fotográfico. «Há muito tempo que não brincamos com o tripé», disse ela.

Montei a E-P1, que saiu assim de mais um período de hibernação, e regulei-a no modo P (parece-me que ainda é cedo para ensiná-la a definir os valores de exposição manualmente). Uma vez que o meu gato permaneceu complacentemente em cima de um puff durante a sessão fotográfica, tornou-se no modelo perfeito, já que a Maria Luís (que já se chamava assim antes de a administradora não-executiva da Arrow Global se ter tornado numa figura pública) tem um fascínio pelo Sousa que, todavia, é correspondido com patadas e arranhões (mas ela não vai desistir tão facilmente dele!).

Os miúdos desta idade têm cérebros que se assemelham a esponjas, no que respeita a absorver conhecimentos. Só precisei de lhe explicar uma vez como se usa a cabeça do tripé para que a Maria Luís entendesse o seu funcionamento e a usasse correctamente. Ela pareceu retirar um prazer imenso das fotografias que ia fazendo – sendo que as últimas três ou quatro foram inteiramente da sua autoria, já que escolheu o enquadramento sozinha (e conseguiu um bom bokeh com a pancake 17mm!).

Temos fotógrafa.

Curiosamente, ver as fotografias no computador deixou a Maria Luís relativamente indiferente. Pelo menos não a divertiu tanto como tirar as fotografias. Apesar de o que uma criança de quatro (quase) anos faz com uma câmara não ser muito relevante – excepto por poder estar a desenvolver um gosto precoce pela fotografia – esta diferença de atitudes deixou-me a pensar sobre o que é melhor – mais divertido, mais recompensador –: é o processo de fazer as fotografias ou ver o resultado final?

A minha mente racionalista diz-me que é este último. Com efeito, em termos estritamente objectivos, procurar um motivo e usar a máquina são apenas meios para atingir um fim, que é a imagem final. Simplesmente, a fotografia não pode ser reduzida a este finalismo. O objectivo de produzir uma imagem é, só por si, irrelevante; antes disso está a questão de saber que imagem se quer colher, a qual desencadeia uma série interminável de outras questões que não são resolvidas pela razão.

Antes de mais há que saber o que se quer fotografar. Esta é uma questão de gosto e traz consigo as inclinações, preferências, opções estéticas e discursivas de quem fotografa. Nada disto tem que ver com considerações racionais. Depois há a sensibilidade, que determina a escolha dos motivos, bem como a composição e o enquadramento. De novo, a razão não é para aqui chamada.

Mas o uso de uma câmara também não é necessariamente um acto determinado pela razão. A escolha de uma câmara pode (reparem que não digo deve) ser determinada por considerações de ordem racional, mas há muito mais do que meras questões materiais no manuseamento de uma câmara. Quando uso a OM, a sensação de disparar é eminentemente física: é como se a vibração do espelho e do obturador se propagasse ao meu corpo. Posso tomar em conta que tanta vibração pode prejudicar a nitidez (não prejudica), mas o que prevalece, no fim de contas, é o prazer que me dá usar esta máquina ao fotografar. Aquele ruído, e sentir aquelas peças em movimento, agrada-me e torna o uso desta máquina uma experiência difícil de descrever a quem só vir pragmatismo na escolha de uma câmara.

Claro que ver as fotografias também me agrada – mas só quanto às bem sucedidas. Mas esta é uma daquelas actividades, como a caça e muitas outras, em relação às quais o prazer de usar os meios é maior do que aquele que se sente por atingir os fins. Mais importante que a caça é a caçada, se podemos dizer assim. Fazer uma boa fotografia é gratificante e satisfatório, mas o caminho que se percorre em busca de um motivo, a preparação da imagem e o uso da câmara são fases deste iter que fornecem tanto prazer como o fim em si.

Se tivesse mesmo de dizer qual me dá mais prazer – se ver o produto final ou percorrer o caminho até chegar a ele –, ficaria seriamente indeciso. Algumas fotografias cativam-me; são como drogas, no dizer do brilhante Bert Stern. Sou capaz de ficar largos minutos a olhar para cada uma delas. Mas fazer caminhadas com a atenção no máximo à procura de boas fotografias, bem como manusear a máquina, não é menos agradável.

Acima de tudo, uma boa imagem agrada quando – e porque – é o culminar de todo um processo em que as sensações estiveram envolvidas. É a recompensa de toda essa busca que se empreendeu. Quanto maior o prazer que tivermos extraído desta última, maior será aquele que retiramos de ver a fotografia que daí resultou. Digamos que o que nos agrada, nessa fotografia, é o facto de esse prazer estar incorporado na imagem – mesmo se só quem fez a fotografia pode vê-lo.

M. V. M.

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