Obituário: Holga

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Segundo as notícias, a Holga acabou. A maquinaria usada na produção das câmaras e lentes foi «deitada fora» e «não há nada para vender», informou um representante da fábrica na China. Isto significa, por outras palavras, que os lomógrafos vão ter menos escolha, mas mais adiante veremos que isto não é tão grave e importante como parece.

Primeiro, um pouco de história: a Holga foi lançada na China em 1981. A sua história e as razões por detrás do lançamento coincidem com as da Lomo, embora as câmaras russas precedam cronologicamente a Holga e esta tivesse a peculiaridade de ser uma máquina de médio formato que fotografava com a relação de aspecto 6×6. Apesar de ter sido um sucesso no início, as vendas decaíram quando o formato 135 começou a ser introduzido no mercado chinês. Com o consumismo veio o digital, o que não ajudou a causa. A Holga ainda lançou câmaras TLR e 135, mas sem grande sucesso.

Curiosamente, o que manteve as Holga vivas até agora foi a Lomography (ou Lomografia, se quiserem). As Holga eram uma alternativa às Lomo e Diana do formato 135 e partilhavam com estas a qualidade de construção – ou falta dela – e a imprevisibilidade absoluta dos resultados, com o visor errático e os valores de exposição fixos (embora a exposição pudesse ser ajustada em função da luminosidade).

Há muito de bom a dizer sobre as Holga e o movimento conhecido por Lomography. Os seus aderentes são os fotógrafos mais descontraídos e menos presunçosos do mundo. As câmaras podem ter infiltrações de luz intoleráveis, a exposição pode ser errática, as cores podem sair ainda mais psicadélicas que quando se usa um rolo de Ektar 100 com luz solar e as imagens podem surgir mal enquadradas – mas isto não é tão mau como parece. Pelo contrário, nas fotografias dos lomógrafos há uma alegria e uma falta absoluta de qualquer pretensão que são uma variação muito agradável à busca obsessiva da precisão que a fotografia digital propugna. Digamos que os lomógrafos são o extremo oposto dos tarados que usam as suas Nikon D810 para fotografar os seus gatos com diferentes sensibilidades ISO. E é bom não ser confundido com estes últimos.

O que não se pode fazer, quando se usa uma Holga ou uma Lomo, é tentar usá-la como se usa uma Nikon FE2 ou uma Olympus OM-2: aquelas câmaras não são para se ter o máximo de nitidez e precisão na exposição: são para as pessoas que as usam se divertirem – quer dizer: para se divertirem mais que os utilizadores de câmaras sérias (mas a diversão é uma coisa muito séria!). E isto nota-se imediatamente nas fotografias. Se me perguntarem se prefiro ver fotografias de lomógrafos ou do Rui Palha, eu não hesito: vou imediatamente colar o nariz à montra da Embaixada Lomográfica. Ah!, que estou eu a dizer? Prefiro ver fotografias de lomógrafos às minhas!

As considerações sobre qualidade de imagem não têm lugar quando se usa uma Holga. Felizmente não há conversas sobre resolução e megapixéis entre os seus utilizadores. Tudo o que eles querem é fotografar – e isto, embora possa parecer contraditório, traz criatividade e vontade de explorar. Não há nada como o incerto e o imprevisível para que as pessoas se ponham a usar a imaginação. (Claro que estou a falar de cor: eu não sei ao certo o que se passa na cabeça dos lomógrafos e o mais perto que estive de me tornar num foi quando usei um rolo Lomography Earl Grey e, antes disto, quando andei a namorar uma Lomo Fisheye 2, ainda antes de aderir à fotografia analógica.)

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Sim, o M. V. M. já andou a sonhar acordado com isto

E agora, como vai ser o mundo sem Holgas? Não muito diferente: o que as Holga trouxeram à Lomografia foi máquinas de médio formato mais baratas, mas esta não é uma verdadeira necessidade para os lomógrafos, que em regra ficam perfeitamente contentes por fotografar rolos 135. Os que precisarem do médio formato terão sempre as Lubitel, que são mais caras mas também melhores que as Holga. (Mas ao querer «melhor» não se estará a sair do espírito da Lomografia?)

Como os Yo La Tengo poderiam ter dito, and then nothing turned itself upside down. A Lomografia não vai certamente morrer com o desaparecimento das Holga e muito menos vai acabar a fotografia analógica. Vai haver menos uma câmara à escolha, mas decerto os lomógrafos encontrarão alternativas.

M. V. M.

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