Steve McCurry e eu

Neste blogue já aludi a muitos fotógrafos famosos; quinze deles fizeram aquelas que considerei as melhores fotografias de sempre, mas há muitos mais. E estou constantemente a descobrir novos fotógrafos – novos para mim, claro.

Um fotógrafo que nunca figura aqui no Número f/ é o americano Steve McCurry. Esse mesmo, o autor da fotografia da menina afegã dos grandes olhos cinzentos hipnóticos. Se mo permitirem – e se vos interessar –, vou explicar porquê, mas não antes de um longo prefácio.

steve-mccurry1Eu não gosto de clichés. Fui sempre completamente avesso a tudo o que seja lugar-comum, ou «batido» ou «estafado». Quanto a mim, o gosto por clichés significa duas coisas: falta de erudição e falta de imaginação. Ambas levam a que uma pessoa apresente esses clichés como algo de inatingível, algo que se aproxima da perfeição e não pode jamais ser superado. O apreciador de clichés gosta deles porque, numa palavra, tem horizontes limitados e apenas conhece o que lhe é dado a conhecer de imediato: não faz qualquer pesquisa, não aprofunda os conhecimentos, não procura cultivar-se; contenta-se com o que lhe dizem que é «bom» sem questionar. Os anglófonos têm uma expressão genial para este tipo de apreciação: acquired taste. É um gosto que não é nosso, mas nos foi impingido insidiosamente.

Esta minha recusa dos lugares-comuns já me valeu apreciações muito pouco elogiosas. O facto de eu não gostar de certa música, que reputo de pliocénica mas é tomada por muitos como o apogeu da música (Pink Floyd, Dire Straits, etc. – ah, se eu pudesse mandar empalar o Mark Knopfler!), já me fez passar por presunçoso e arrogante. Não é nada disso. É uma questão de como construí os meus gostos. Se prefiro a música dos The Vaccines à dos Pink Floyd é porque forjei os meus gostos junto dos meus amigos da adolescência, que ouviam Clash e Joy Division, e durante as tardes de estudo em Coimbra, quando tinha António Sérgio e o Som da Frente por companhia – mas também porque estudei música e, tendo crescido a ouvir música clássica, estabeleci uma fronteira sólida entre a clássica e a pop – de tal maneira que, quando esta imita a primeira, invariavelmente me soa a pastiche e a usurpação. Mas nunca ostentei os meus gostos musicais, nem os adoptei por julgar que eles me fariam superior a quem não comunga deles: eles são-me naturais. São o produto da minha educação e das circunstâncias da minha vida.

O mesmo com a fotografia. O grande impulso para a minha apreciação da fotografia veio de um mini-álbum de fotografias de Josef Koudelka. Este facto fez com que os meus gostos se filiassem numa determinada corrente fotográfica que nasceu da reportagem e tem expressão em Henri Cartier-Bresson, W. Eugene Smith, René Burri, Werner Bischof e alguns outros. Características desta corrente são, além do uso do preto-e-branco (que a caracteriza mas não a define), a fuga ao habitual e a expressão gráfica de conceitos que muitas vezes são carregados de significados sociais e políticos. Muitos dos fotógrafos que acabei de referir – aliás, todos eles – são ou foram cooperadores da Magnum.

Curiosamente, Steve McCurry também pertence à Magnum e partilha muitos dos princípios daqueles fotógrafos. Neste caso, por que merece tão pouca atenção do M. V. M.? Deixem-me começar por responder que não é decerto por ser um mau fotógrafo: Steve McCurry é um dos melhores fotógrafos vivos. É um precursor, no sentido em que tem um estilo próprio que é facilmente reconhecível e, com ele, inaugurou uma maneira de fotografar.

E é precisamente esta a razão por que não publico muita coisa sobre Steve McCurry: as suas fotografias, à custa de serem tão frequentemente imitadas, tornaram-se cliché. Um dos exemplos que mais frequentemente aponto como epítome do cliché actual é o do hindu de turbante fotografado a cores e, de preferência, a fumar, com o fumo pairando sobre o rosto e encobrindo-o ligeiramente. Há biliões de fotografias iguais a esta na internet. Quem foi o primeiro a fazê-lo? Se responderam Steve McCurry, acertaram (mas não há prémios).

Steve McCurry não tem culpa de ser imitado; contudo, sem as suas fotografias não haveria Joel Santos nem a trupe infindável de fotógrafos para quem é mais fácil fotografar cenas «exóticas» na Índia do que encontrar motivos bem mais originais que estão debaixo dos seus narizes. Se eu não consigo sequer olhar para certas fotografias de Steve McCurry, não é por causa dele nem por causa das fotografias em si: é por causa desses imitadores. Foram eles que fizeram com que os temas de McCurry se tivessem tornado intoleráveis a meus olhos.

Por Steve McCurry
Por Steve McCurry

Contudo, McCurry precede os Joel Santos deste mundo por algumas décadas, o que pode fazer com que a minha apreciação pareça injusta. Sejamos claros: Steve McCurry é um génio. É, como disse mais acima, um dos grandes fotógrafos mundiais vivos. Algumas das suas fotografias são obras-primas absolutas, mas muitas outras são clichés. São fotografias que, de tanto serem mostradas, exibidas, premiadas e imitadas, se tornaram cansativas e estafadas.

Por Steve McCurry
Por Steve McCurry

Depois de tudo isto, espero que não levem a mal que McCurry tenha uma presença tão diminuta no Número f/. Não é nada pessoal, nem é certamente por ser mau fotógrafo.

M. V. M.

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