W. Eugene Smith meets Roland Barthes

Se há coisa de que o Número f/ não pode ser acusado é de mostrar fotografias sofríveis. As únicas fotografias sem qualidade que aqui aparecem são a) as do próprio autor e b) fotografias publicadas com propósitos meramente ilustrativos, demonstrativos ou sarcásticos. De resto, não há assim tantos blogues portugueses que apresentem aos seus leitores fotografias tão boas como as que surgem aqui no Número f/. E não – não estou a gabar-me: este é um facto.

Ainda ontem mostrei aqui uma fotografia absolutamente excepcional, como quase todas as desse fotógrafo excepcional que foi William Eugene Smith. O que eu pretendi – e houve pelo menos um leitor que entendeu outra coisa – foi que vissem esta fotografia para além da apreciação necessariamente superficial que é a da estética. Claro que a fotografia é belíssima: está excepcionalmente bem composta e o preto-e-branco altamente contrastado, marca inequívoca do estilo que W. Eugene Smith cultivou, é simplesmente perfeito. Mas fotógrafos como este transmitem muito mais ao espectador do que aquilo que é imediatamente percebido pelos sentidos.

Charlie Chaplin por W. Eugene Smith
Charlie Chaplin por W. Eugene Smith

O interesse da fotografia de W. Eugene Smith não se esgota na atitude corporal do técnico que se vê do lado direito. Diria que, tal como é marca dos génios, nada nesta fotografia dependeu do acaso. Se repararmos bem, o enquadramento foi feito de maneira a incluir a câmara, do lado esquerdo, e o técnico à direita. Quanto à importância do técnico, já me referi a ela em parte substancial do texto de ontem. A câmara, essa, identifica, para lá de qualquer dúvida, o cenário onde a história – sim, esta fotografia conta uma história – se desenvolve, mas também funciona como como uma alegoria de Hollywood: o facto de a câmara ser colossal não deixa dúvidas que W. Eugene Smith quis introduzir uma metáfora dos meios que eram então usados para realizar um filme.

Esta fotografia é, embora possa não o parecer, um prodígio de composição. Sabemos que W. Eugene Smith tinha o hábito de recortar as suas fotografias, e fazia-o por entender que tal podia resultar num benefício para as imagens. «I crop for the benefit of the pictures» – disse Smith um dia.  «The world just doesn’t fit conveniently into the format of a 35mm camera». Este é um desses casos. Se repararmos bem, a imagem não corresponde a nenhuma das relações de aspecto conhecidas, parecendo que as suas dimensões relativas foram determinadas pela necessidade que o fotógrafo sentiu de incluir ou excluir determinados objectos. Ou seja, o recorte foi usado como um instrumento de composição da imagem.

Mas há mais. Do lado esquerdo, em baixo, há uma cadeira vazia, como que nos dizendo que Charles Chaplin poderia ter sentado nela, mas escolheu sentar no chão. Será lícito ver aqui um juízo formulado por W. Eugene Smith sobre a irreverência de Charles Chaplin – quer dizer: uma reiteração desse juízo, porque toda esta imagem é uma descrição da irreverência de Chaplin?

Roland Barthes, no seu A Câmara Clara, alude a esta forma de ver as fotografias. Para ele, há os elementos que são apresentados à decifração da nossa inteligência, apreendidos através do que ele intitulou studium, e há um componente inefável e subjectivo que é o punctum. Este último é, pode dizer-se assim, a maneira como um determinado elemento da fotografia nos afecta – o que nos toca, aquilo que nos fere. Pode ser os sapatos de uma pessoa, os dentes ou as unhas de outra, mas há – pode haver: muitas fotografias não têm punctum algum – algo que faz com que a fotografia nos afecte de uma maneira ou outra.

O punctum é também, nas palavras de Barthes, aquilo que nós acrescentamos à fotografia. Aquilo que vemos nela, a maneira como a sentimos, está fora da fotografia. Contudo, o elemento que nos atinge, que nos fere – a noção de punctum é diferente da de choque que caracteriza o fotojornalismo – está presente na imagem. O que nós acrescentamos é despoletado, muitas vezes, por um pormenor que nos faz ver a fotografia de uma maneira muito diferente. O punctum da fotografia de Smith é, para mim, a cabeça inclinada (e os braços, que reforçam a sua expressão) do homem que surge à direita na fotografia. Os outros elementos têm significado, mas na apreciação que fiz desta fotografia fazem parte do studium, e não providenciam o punctum. Note-se, porém, que o punctum é individual a cada espectador: a cadeira vazia pode ser o punctum para outro leitor. Ou um dos focos. O punctum é um elemento não desejado pelo fotógrafo que, para cada um, confere um significado íntimo (se podemos dizer assim) à fotografia.

Mais importante do que estabelecer classificações conceituais é dizer que as fotografias afectam cada um de maneira diferente. Uma fotografia pode ter um significado fortíssimo para mim e nada dizer a outro leitor. Isto é o que cada um acrescenta à fotografia, é o punctum. O facto de a fotografia poder ter significados que lhe acrescentamos é demonstrador da sua riqueza expressiva – mesmo se ela parte sempre de um facto, de um objecto com existência física.

M. V. M.

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