Da atenção

Charlie Chaplin por W. Eugene Smith
Charlie Chaplin por W. Eugene Smith

Há muito que venho insistindo na ideia de que as fotografias – especialmente as grandes fotografias, aquelas que constituem marcos na história da fotografia, mas também as mais modestas, posto que feitas com intenção – devem ser vistas com cuidado e demoradamente; há sempre algo nessas fotografias que transcende o seu significado imediato, aquilo que se apresenta directamente aos olhos do espectador.

É muito comum, nestes dias em que tudo tem de ser imediato e instantâneo – vivemos na sociedade do e do agora –, que as fotografias sejam vistas apressadamente e se faça um juízo sumário sobre elas. A verdade é que há uma imensa massa de fotografias que se bastam com essa apreciação porque não têm nada mais a mostrar a não ser o elemento gráfico que as faz saltar aos olhos. Aliás, esta é uma estética fotográfica que tem a sua origem nessa competição das fotografias pela atenção do espectador, o que explica os excessos de HDR e a busca por paisagens cada vez mais rebuscadas.

Contudo, nem todas as fotografias são para ser absorvidas instantaneamente. Há algumas que requerem atenção. Penso que já escrevi sobre isto aqui no Número f/, mas esta parece-me ser uma daquelas ideias em que vale a pena insistir: por vezes surgem-nos fotografias que têm mensagens que precisam de ser procuradas e que exigem do espectador que procure interpretar os seus elementos para compreender a intenção do seu autor.

Avenida Cortenbergh, Bruxelas, 29 de Setembro de 2015
Avenue Cortenbergh/Kortenberglaan, Bruxelas

A ideia de escrever este texto veio-me depois de ter publicado, na Quarta-feira, uma das poucas fotografias que fiz quando estive em Bruxelas. Vi uma mulher elegante caminhando no passeio oposto ao meu; a sua trajectória levá-la-ia a passar defronte a um edifício com vidros altamente reflectores, e o momento em que o reflexo dela seria visível pareceu-me merecedor de uma fotografia. Contudo, quando estava a compor, reparei que, sobre o lado direito, havia uma câmara de vigilância no edifício e decidi incluí-la no enquadramento. A mensagem era subtil: a presença daquela câmara levantou-me, nesse momento, diversas questões sobre a dicotomia entre a liberdade e a segurança. Não sei se consegui incluir estas minhas ideias na minha fotografia; se não consegui, foi por falta de arte; não foi certamente por não ter tentado.

Há que ter em conta que, por vezes, o motivo de interesse das fotografias não está naquilo que é o motivo – ou objecto – da fotografia, mas em algo mais subtil. Se tomarmos o exemplo da fotografia no topo deste texto – que é uma das muitas que W. Eugene Smith, o fotógrafo que venero acima de todos os demais, fez durante as filmagens de Luzes da Ribalta, de Charles Chaplin –, veremos que o principal motivo de interesse não é exactamente o próprio Chaplin, apesar de este estar sentado no chão aos pés de uma câmara assobiando. Em si, a presença de Charles Chaplin – que é o motivo óbvio da fotografia –, sentado e assobiando numa pose zombeteira, seria suficiente para conferir interesse à imagem, tal como a dimensão gigantesca da câmara, mas há algo que W. Eugene Smith quis dizer com esta fotografia que pode escapar aos olhares desatentos.

Reparem no homem do lado direito: ele é um técnico – possivelmente um operador de câmara – e a sua linguagem corporal formula um juízo sobre Charlie Chaplin que é bem mais eloquente do que a pose deste último. Há, na imagem do técnico, uma expressão de condescendência que é verdadeiramente impagável: ele é o profissional habituado aos ritmos de trabalho de um estúdio e está vinculado ao cumprimento de horários; cabe-lhe zelar pelo bom andamento das filmagens. Confrontado com a atitude zombeteira de Chaplin, a sua atitude torna-se ambivalente: há nele a impaciência pelos horários que têm de ser cumpridos para que tudo funcione, o que induz um juízo de reprovação, mas este é mitigado por uma diversão que não se quer mostrar, mas não pode ser disfarçada: lembra um pai circunspecto que observa uma asneira (inócua) do filho que adora. Quase podemos ler, nesta fotografia, o que vai na mente do técnico.

Claro que as interpretações podem variar de um espectador para outro; haverá decerto alguém que interprete a presença do técnico no enquadramento de uma maneira diferente da minha, mas isto apenas vem comprovar o que eu defendo: há fotografias que são tanto para ser interpretadas como para ser vistas. Tal como acontece, aliás, com a boa pintura e com outras formas de expressão artística. A pior das estultícias é olhar uma fotografia como esta e nada ver de especial.

M. V. M.

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3 thoughts on “Da atenção”

  1. O “técnico” que refere, entendo ser o responsável pela iluminação, o operador de camera está agachado atrás da mesma, vendo-se inclusive a mão direita dele, numa das pontas do cabo q em forma de U.
    Esta também atrás do C. Chaplin uma outra pessoa, provavelmente um dos assistentes de produção, dada proximidade do operador de camera…
    Dado que C. Chaplin aparenta estar “descaracterizado”, assumo que não estejam á espera dele para representar, sendo sabido que ele teve outras funções para além de actor, como: “diretor, produtor, financiador, roteirista, músico, cinematógrafo”.
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Charlie_Chaplin

  2. Sim, AB, muito perspicaz, mas a questão não é descobrir quantas pessoas estão na fotografia. Essas pessoas que refere não têm qualquer tipo de intervenção na história que a fotografia conta. São meros figurantes – ou parte do cenário. O que eu propus foi interpretar a fotografia, e não jogar Onde Está o Wally.

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