Limpeza de Primavera

Uma das fotografias que não consigo apagar
Uma das fotografias que não consigo apagar

Ontem e hoje estive a apagar fotografias do meu Flickr. Apesar de tudo, não consegui senão desfazer-me de cerca de uma centena e meia, sendo a maioria delas anterior a 2013. Eu não tenho necessidade estrita de apagar fotografias – a capacidade da minha conta é ilimitada –, mas faço-o pela mais simples das razões: não quero que as pessoas vejam certas fotografias. Não por estas serem obscenas, mas por serem demasiado medíocres.

Olho para algumas fotografias de principiante e pergunto-me, não por que quis publicá-las, mas por que as tirei. Entre estas fotografias estão praticamente todas as que fiz com efeitos: fotografias com arrastamentos e pannings. Gostava de ter de volta o tempo que gastei a fazer estas fotografias. Além destas, houve outras que apaguei por que me tinha deixado iludir acerca do seu valor: muitas fotografias de carros e motos, mas também várias de pseudo-reportagens: ia a uma manifestação, fazia várias centenas de fotografias e seleccionava uma dúzia – às vezes mais – para publicar no Flickr; propus-me fazer séries de fotografias de outros temas que na altura me pareceram interessantíssimos, como um passeio de manhã pela Afurada, pelo meio dos barcos e apetrechos de pesca, ou catraios das zonas da Sé e da Ribeira, apenas para descobrir que essas reportagens de trazer por casa não tinham afinal interesse nenhum.

O meu sentido crítico está cada vez mais agudo – o que se explica pelo cada vez maior conhecimento que vou adquirindo de grandes fotografias e fotógrafos –, mas curiosamente não consigo livrar-me de certas fotografias que sei que não têm interesse (ou não têm punctum, como escreveu Barthes). Às vezes não o faço por que sinto que, se o fizesse, o tempo que gastei a tirá-las perderia todo o sentido. É como se dissesse a mim mesmo: «Ah!, perdi aquelas horas todas mas ao menos esta fotografia salvou-se». Muitas vezes estou a mentir a mim mesmo, porque houve muitas sessões em que todas as fotografias foram inaproveitáveis.

Sim, mas que concluí de tudo isto? Que ensinamentos retiro de fotografias que me envergonham?

Em primeiro lugar, que não tem qualquer tipo de utilidade fazer centenas ou milhares de fotografias num só dia. Este é um vício que o digital trouxe e que é pernicioso porque com ele não aprendemos a valorar devidamente o que vemos. É, para usar uma analogia que já empreguei antes, como a pesca por arrasto: apanham-se milhões de peixes (bem como garrafas de plástico e sapatos velhos) para no fim só se aproveitar uma mão-cheia (de peixes, não de detritos, claro).

Aprendi que não preciso das técnicas para os tipos de fotografia que quero fazer. É sem dúvida importante conhecê-las, porque há fotografias que podem resultar melhor se as empregar, mas as técnicas, quando são o próprio fim da fotografia, resultam em imagens com interesse nulo. Podem ser apelativas visualmente, mas são superficiais – e, o que é pior, banais. Porque qualquer um que se apanhe com uma câmara evoluída nas mãos tende instintivamente para fazer este tipo de fotografia técnica. Alguns ultrapassam esta fase, outros não. As fotografias têm de valer pelo que dizem, pelas ideias que exprimem; a estética é importante, mas não pode ser tudo. Uma fotografia que só valha pela estética nunca permanecerá na mente do espectador por mais que alguns segundos. Quero que as minhas fotografias valham por dizerem algo a quem as vê. Algo que não se esgote num simples juízo sobre a sua beleza.

Aprendi também que as minhas fotografias começam a ter algumas características consistentes: a iluminação e a simplicidade gráfica. Contudo, este ano – a limpeza que fiz nestes dois últimos dias não foi a primeira que fiz – apaguei várias fotografias «analógicas», i. e. digitalizadas dos meus negativos. Porque, apesar de haver uma evolução temporal – no sentido em que quanto mais recentes as fotografias são menos sinto necessidade de removê-las –, também fiz muitas fotografias disparatadas com a OM-2.

Provavelmente estou a exigir demasiado de mim mesmo, mas não me interessa dar-me à indulgência de aceitar tudo o que faço sem critério, nem me permito a arrogância de pensar que tudo o que faço é bom. O que eu devia era, em vez de gastar tempo com limpezas de Primavera, fazer o que Ctein me aconselhou há alguns anos: pegar nas minhas melhores fotografias e juntá-las num website. Como bom procrastinador que sou, este é um projecto em que ainda nem sequer comecei a pensar. Talvez um dia…

M. V. M.

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