O estado das minhas escritas

Se me perguntassem sobre que mais gosto de escrever neste blogue, a resposta seria inequívoca: grandes fotógrafos e grandes fotografias. Escrever os textos sobre Harry Gruyaert e Martine Franck fez-me sentir necessidade de me embrenhar completamente na escrita e no assunto, tal como acontecera há cerca de um ano, quando escrevi sobre aquelas que considerava serem as quinze melhores fotografias de sempre. A fotografia, talvez por ser um interesse relativamente recente – foi despertado há cerca de vinte anos por um livrinho a que já aludi aqui e apenas fotografo há cinco anos – parece ser inesgotável nos assuntos de interesse.

Os meus planos para a escrita após o texto sobre Martine Franck foram alterados por causa dos atentados de 22 de Março em Bruxelas. Apesar de só ter lá estado quatro dias, criei uma relação quase de pertença com uma cidade que, em lugar da metrópole fria e burocrática que imaginei, se me mostrou acolhedora e descontraída (abstraindo, pelo menos, da parafernália militar à porta das sedes de certas organizações). Tinha pensado tomar uma fotografia ou um fotógrafo e discorrer sobre eles, mas senti urgência de escrever o que pensei sobre esses atentados e o resto ficou para trás.

Avenida Cortenbergh, Bruxelas, 29 de Setembro de 2015
A Avenida Cortenbergh, Bruxelas, como eu a vi

Por outro lado, sinto que estou em falta com os leitores. Depois de meados de Dezembro do ano passado, o número de textos publicados diminuiu drasticamente. Quero retomar o ritmo de escrever pelo menos quatro textos por semana, se não conseguir fazê-lo todos os dias (embora me pareça que mais vale um texto decente de dois em dois dias, ou mesmo um por semana, do que textos desinspirados e desinteressantes todos os dias.

Um dos meus projectos para o Número f/ é escrever uma análise crítica demorada e circunstanciada do último livro que comprei (e ainda não acabei de ler): o livro chama-se A Câmara Clara e é o célebre ensaio filosófico sobre fotografia de Roland Barthes, que foi finalmente publicado em Portugal pelas Edições 70. Aliás, não é correcto dizer que estou a ler este livro: na verdade, estou a estudá-lo. Com sublinhados a lápis, notas à margem e tudo.

Roland Barthes
Roland Barthes

O defeito de Roland Barthes é comum a todos os pensadores franceses da sua época: são demasiado conceituais e atravancam o raciocínio com conceitos desnecessariamente complicados (foi isto que me fez desistir de ler O Mito de Sísifo, de Albert Camus). Não tenho aversão a raciocínios complexos, nem dificuldade em entender o que os autores pretendem exprimir, mas entendo que a simplicidade é uma virtude. O ideal é traduzir um conceito complexo por palavras simples, sem contudo desvirtuar ou rebaixar o pensamento do autor; ora, Barthes (como Camus) faz o oposto: complica desnecessariamente conceitos que, na sua essência, são simples.

Tomemos o seguinte exemplo: todos temos a noção de que a nossa mente acede a uma fotografia num plano puramente intelectual, no qual (abstraindo de questões técnicas que não são chamadas a esta demanda) identificamos o objecto, as pistas presentes na imagem que nos permitem situá-la no tempo e no espaço e a intenção do fotógrafo, mas também num plano emocional, no sentido em que a fotografia nos causa impressões subjectivas. Tudo isto é sabido, mas Roland Barthes prefere chamar àquele plano intelectual studium e a este nível emocional punctum. É certo que os conceitos são inteligentemente desenvolvidos e aplicados na prática (a fotografias da preferência do autor, que incluem algumas de William Klein, André Kertesz, Robert Mapplethorpe, August Sander e Richard Avedon, bem como as de um fotojornalista holandês chamado Koen Wessing, que preciso urgentemente de investigar), mas parece-me desnecessário elaborá-los desta forma quando a mesma ideia se pode exprimir de forma simples sem a degradar.

Feito este reparo, as teses de Roland Barthes nunca são menos que fascinantes. O seu ponto de partida é o do espectador da fotografia e é a partir daí que o ensaio se desenvolve, abstraindo absolutamente de questões técnicas que apenas causam impressões superficiais. Ainda é demasiado cedo para me alongar sobre esta obra, mas não quero deixar de manifestar o meu regozijo por A Câmara Clara ter sido finalmente traduzido e editado em Portugal.

E será curioso saber o que vou aprender com A Câmara Clara que possa transportar para a minha fotografia.

M. V. M.

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