A grande fotógrafa belga

PAR65856
No texto anterior referi-me de passagem a Martine Franck. Como Harry Gruyaert, ela é belga e é uma das grandes fotógrafas da história (independentemente do género).

A fotografia de Martine Franck, quando se dedicou àquilo que se chama «rua» ou «reportagem», é uma visão enternecida da vida, no que esta tem de mais pessoal: no glorioso e no patético, a lente de Martine Franck mostra-nos a vida como esta é vista por uma mente perscrutadora e sensível.

Apesar deste cunho eminentemente humano e emocional que está sempre presente nas fotografias de Martine Franck, sendo o que mais de imediato se apresenta aos olhos do espectador, ela cultivou, com uma parte substancial da sua obra, expressões como o abstraccionismo e o surrealismo que estão na esteira de Henri Cartier-Bresson mas vão frequentemente mais longe.

FRANCE. Provence. Town of Le Brusc. Pool designed by Alain CAPEILLERES. 1976.

Há também, nas suas fotografias, um cuidado com a composição que não pode deixar de ser admirado. Martine Franck joga com linhas, vectores, volumes, perspectivas e proporções que poderão passar despercebidos aos menos treinados – especialmente aos mais propensos para se cingirem ao conteúdo emocional da fotografia –, mas estão presentes e combinam com o conteúdo significante para formar imagens de uma qualidade que, inevitavelmente, coloca Martine Franck entre os grandes fotógrafos do seu tempo.

Paul Strand por Martine Franck
Paul Strand por Martine Franck

Depois há a sua obra como retratista, para a qual Martine Franck transpôs, devidamente adaptados, os princípios que empregou no resto da sua obra. Os seus retratos quase sempre estabelecem uma ligação entre a pessoa retratada e o ambiente onde esta se desenvolve, nisto precedendo o retratismo ambiental de Arnold Newman.

E, a despeito da beleza e da qualidade das suas fotografias, Martine Franck não tem o reconhecimento que indubitavelmente merece. Fotógrafas como Margaret Bourke-White e Dorothea Lange – e, mais recentemente, Vivian Maier – são conhecidas por se terem imposto num mundo de homens. Martine Franck devia ser mencionada em igualdade de circunstâncias com elas – se dermos uma importância excessiva ao género –, mas não é.

MOROCCO. Agadir. 1976.

Há dois factores que concorrem para tanto. Um, o menor, é o facto de Martine Franck ser belga. É verdade – a Bélgica é um pequeno e jovem país entalado entre dois potentados das artes (França e Holanda), que, pela sua juventude – a Bélgica só é soberana desde 1830 –, não tem passado nem tradição nas artes. O que foi produzido em território belga antes de 1830 pertence à França ou à Holanda (é o caso, respectivamente, de César Franck ou de Peter Paul Rubens).

Mas não é apenas isto que impede Martine Franck de ser aplaudida como um génio mundial da fotografia. Nem sequer é esta a causa principal. Mais decisivo é o facto de ter sido casada com Henri Cartier-Bresson. É difícil, seja a quem for, medir-se com a monumentalidade da obra e com a importância de Cartier-Bresson. A meu ver, só W. Eugene Smith conseguiu ser maior que ele, mas tenho consciência que esta é uma opinião controversa e discutível. Para muitos – e isto é o que há de mais injusto –, Martine Franck era apenas a mulher de Henri, que por acaso até fazia umas fotografias interessantes (certamente inspirada pelo talento do marido, poderão alguns insinuar), mas nada de importante. Isto é de tal ordem que algumas fotografias de Martine Franck passam, aos menos perspicazes, por ser da autoria de Cartier-Bresson (como a do topo deste texto); e é, evidentemente, de uma injustiça flagrante.

FRANCE. Ile de France region. Parc de Sceaux. 1987.

A obra de Martine Franck tem qualidade e autonomia suficientes para se afirmar em toda a sua grandeza, mesmo quando comparada com a de muitos outros fotógrafos (incluindo o marido). Pode ser verdade que atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher – mas, no caso de Martine Franck, o homem era de tal maneira grande que obstruiu, ainda que involuntariamente, a vista da obra da mulher.

M. V. M.

Anúncios

1 thought on “A grande fotógrafa belga”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s