Toda a nudez será castigada

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Kishin Shinoyama

O país que inventou a indústria da pornografia – os Estados Unidos da América, para quem ainda não soubesse – está actualmente dominado por um puritanismo serôdio que ameaça alastrar a este lado do Atlântico. Não me refiro apenas àquilo que, de forma irritante, por vezes se alude como «politicamente correcto», mas a uma forma de repressão mais insidiosa que, pelo vício de viver numa Europa onde o pensamento é (ainda) livre, imaginei estar ultrapassada em todo o Ocidente: a condenação da nudez. Seja qual for a forma como ela se manifesta, para os puritanos tudo é igual: uma fotografia de Herbert List é tão censurável como uma outra retirada de um website de pornografia.

Dei-me conta disto ontem, numa troca de emails com um cidadão norte-americano, depois de ter descoberto que uma hiperligação para a fotografia de Kishin Shinoyama Dois Nus Vistos de Trás, que considero uma das quinze melhores fotografias de sempre, vinha acompanhada da nota «NSFW» (Not Safe For Work). Foi-me explicado que, nos Estados Unidos, a detecção de ficheiros de imagem num computador contendo nudez pode ser causa de despedimento, e que, se uma imagem de nus estiver armazenada no computador de uma escola, o website de onde a imagem foi descarregada pode ser encerrado.

O que eu poderia aceitar no caso de imagens obscenas, especialmente de pornografia infantil, mas o tema era uma fotografia de um teor resolutamente artístico onde a nudez nem sequer é frontal. O que significa que esta sanha censória não conhece fronteiras nem distinções: toda a nudez será punida, mesmo que seja empregue com propósitos artísticos. Pensar que alguém pode ser despedido se tiver descarregado Dois Nus Vistos de Trás é simplesmente grotesco, mas aparente não na pátria de Donald Trump.

O que é estranho é que isto parece não ser merecedor de discussão. Esta repressão da nudez (e eu reforço que o que me choca é o nu artístico ser levado de arrasto) parece ser algo adquirido, como não sair à rua em roupa interior ou não incorrer em gestos exibicionistas nos comboios do metropolitano. (Ou como o facto de a Autoridade Tributária e Aduaneira poder fazer escutas telefónicas aqui em Portugal, perante a indiferença aparente de todos.) Ou seja, o puritanismo não se questiona: obedece-se. É necessário avisar todos que é perigoso ver uma fotografia de Kishin Shinoyama no computador. Isto tem um nome: é uma ditadura.

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Lucien Clergue

Por enquanto ainda estamos livres deste puritanismo aqui na Europa. Há muito que nos habituamos a alguns cuidados, como ser prudente quanto a imagens de crianças, mas isto é nada comparado com a cegueira e estupidez dos guardiães americanos da moral. Contudo, temo que esta moralidade se instale também na Europa, o que seria castrador para a criação artística.

Um nu de Shinoyama – ou de Lucien Clergue, Helmut Newton ou Toto Frima – nada tem de obsceno. Há algo de doentio no facto de alguém ver pecado, concupiscência ou imoralidade em fotografias artísticas – se é que não o vêem também na pintura e na escultura. Algo de muito errado se passa na cabeça das pessoas que entendem que o nu artístico é merecedor de censura e reprovação. É falta de erudição, dirão alguns, e não sem razão; é muito que vai mais fundo e é muito mais grave do que isso, digo eu: é uma manifestação de mentes reprimidas que, além de serem absolutamente desprovidas de pureza e inocência, vêem sexualidade nessas imagens, assimilando a nudez ao sexo. Ora, o corpo humano é indubitavelmente o objecto do desejo sexual, mas não se reduz a essa dimensão. O corpo é a única possessão que verdadeiramente temos, porque nascemos com ele; é natural que muitos de nós o estimemos e admiremos. É assim desde, pelo menos, a Grécia antiga. O corpo sempre fascinou artistas porque a arte é livre, fecunda e criadora – como todos devíamos ser. E convém ter em conta que o corpo humano, quando inadulterado por padrões de vida viciosos, é naturalmente belo. Nele tudo é harmonia e fluidez, pelo que não surpreende que tenha sido usado,ao longo dos tempos, como objecto de manifestações artísticas. Reduzir tudo isto à sexualidade – ou melhor: a uma concepção repressiva do sexo – é uma estultícia.

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Helmut Newton

Simplesmente, estas pessoas doentes têm uma influência desmesurada na sociedade norte-americana. A mesma sociedade que ridiculariza os países do Islão que obrigam ao uso da Burqa vê com maus olhos que cada um disponha livremente do seu corpo, pretendendo impor uma moral obsoleta e concepções de vida que se poderia imaginar terem caído em desuso com o fim da Idade Média. No fundo, o que estamos a discutir quando o tema é a nudez artística é a liberdade. E esses puritanos odeiam a liberdade. A pior coisa que lhes pode acontecer é confrontarem-se com ela, seja qual for a forma que a liberdade assume.

M. V. M.

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