Retro

K-1_FA31LimitedJá estou um bocado farto de máquinas fotográficas com estilo retro. Eu não sei o que os fabricantes querem com isto – pedir emprestado o passado? Convencer os estetas?

Por mais que nos queiram impingir câmaras como as Fuji X100, X-Pro e X-T, as Olympus OM-D e PEN ou ainda a Nikon Df, a estética retro, por mais conseguida que seja, não consegue esconder um facto muito simples: é que, por baixo daquelas roupagens retiradas dos anos 60 e 70 do século passado, está uma câmara digital. Um pequeno computador que, dentro de três ou quatro anos, estará obsoleto, não terá qualquer valor comercial e ninguém comprará em segunda mão.

Em contrapartida, as máquinas fotográficas cujo estilo as câmaras digitais retro imitam ainda duram, têm uma procura substancial e algumas delas atingem preços consideravelmente elevados. Os fabricantes sabem isto, tal como sabem que muitas dessas máquinas têm um valor de estimação que nenhuma câmara digital pode atingir, e imaginam que imitar essas linhas é uma fórmula de sucesso, mas as máquinas fotográficas dos anos 60 e 70 eram feitas para durar décadas (ou vidas), ao passo que as câmaras digitais são feitas para ser substituídas todos os anos. Dificilmente se estabelece um vínculo de estima com um objecto cuja passagem pelas nossas mãos se conta em meses. É muito mais provável que, dentre de vinte anos, eu me lembre com mais agrado da minha OM-2 do que da E-P1 – e eu sou um novato; imaginem, pois, como será com os mais experimentados!

Esta psicose do retro parece-me demonstrativa do fracasso dos fabricantes em conceber câmaras com linhas originais que sejam verdadeiramente cativantes. O único fabricante que faz câmaras digitais com um look contemporâneo é a Sony, mas, além de não serem câmaras esteticamente muito conseguidas, a Sony é o que é: um construtor que pensou que podia comprar prestígio adquirindo uma marca prestigiosa, neste caso a Minolta. A Sony é um fabricante de electrónicas e isto vê-se no facto de as suas câmaras terem adquirido uma boa reputação, mas as lentes serem motivo de irrisão. Apesar de as suas câmaras serem interessantes, as pessoas ainda não vêem a Sony como um fabricante sério de equipamento fotográfico.

Depois há as DSLR. A vaga das mirrorless tornou insuportável um design que já era cansativo e monótono, mas a Canon e a Nikon insistem em renovar os seus modelos, adicionando uma mão-cheia de megapixéis para impressionar os papalvos todos os anos, mas sem tocar na linha das câmaras. É certo que o seu design é funcional – a pega e as linhas arredondadas não são assim por acaso, antes resultando das exigências de ergonomia e funcionalidade –, mas o facto é que as DSLR têm as mesmas linhas desde os anos 90. Linhas que estão mais que estafados.

Curiosamente, foi entre as DSLR que apareceu aquela que pode redefinir o design das câmaras digitais: a Pentax K-1. Esta câmara, que é a primeira DSLR full frame da Pentax, não é de modo nenhum uma câmara retro. A sua linha é resolutamente contemporânea, embora inspirada na tradição. O alojamento do pentaprisma, que é um modelo de excelência em design, é um clin d’œil à Pentax 6×7, mas as referências ao passado esgotam-se nessa evocação. O resto é moderno e, sobretudo, é um desvio em relação às linhas moles das DSLR correntes.

Uma DSLR contemporânea não pode ter arestas vivas, não pode ser feita com metal maciço (o que a tornaria demasiado pesada) nem pode prescindir da ergonomia de um punho profundo, mas isto não quer necessariamente dizer que não há lugar para inovar o design mantendo a funcionalidade. A Pentax (ou a Ricoh, se preferirem) mostrou, com a K-1, que é possível fazer uma câmara digital apelativa sem cair na imitação do passado que é o retro. O retro, aplicado às câmaras digitais, é um travesti do passado. Decerto que aquelas linhas são bonitas e intemporais, mas o facto de uma câmara copiar essas linhas não vai trazer intemporalidade àquilo que é, por essência, passageiro e volátil.

A própria coqueluche das mirrorless é intrigante. Não consigo compreender por que alguém há-de preferir compor e enquadrar através de um visor electrónico – nem concebo a possibilidade de usar câmaras sem visor de espécie alguma, obrigando a compor através do ecrã – quando pode, pelo mesmo preço, comprar uma máquina com um visor óptico, mas há escravos da tecnologia para quem o adjectivo «electrónico» comanda todas as opções. Como é entre as mirrorless que a moda retro se faz sentir mais intensamente, temos de adicionar a tudo isto o absurdo de computadores com visor electrónico se travestirem de máquinas fotográficas com um visor a sério.

Ou seja: esta moda retro é de uma falsidade gritante. Os fabricantes, em lugar de fazerem um esforço para encontrar um design contemporâneo que conjugue estética e funcionalidade, preferem imitar o passado, mas o resultado são pastiches de máquinas fotográficas que têm muito maior prestígio do que as câmaras digitais alguma vez terão. As excepções são a Sony e, felizmente, a Pentax. Os fabricantes deviam seguir o exemplo da K-1, que consegue evocar o passado sem o imitar.

M. V. M.

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