Grande-angulares e retratos

Anda na internet uma espécie de furor completamente absurdo. É um daqueles fenómenos incompreensíveis que só podiam ter origem na internet. Ainda não é pandémico ou viral, mas penso que já afectou alguns milhares de pessoas por esta altura: a nova mania a que aludo consiste em usar lentes grande-angulares para fazer retratos.

Os argumentos a favor do uso destas lentes para retratar pessoas fazem algum sentido: as grande-angulares, pelo seu ângulo de visão, captam um plano de fundo mais extenso – logo mais informativo – que as lentes de distância focal maior. De modo que começaram por chamar a estas fotografias «retratos ambientais», mas os «retratos ambientais» não são nada disto: um exemplo de retratos ambientais verdadeiros e próprios são os feitos pelo majestoso Arnold Newman e nada têm que ver com este disparate.

Há um esforço, visível em websites de referência, para legitimar este uso de lentes grande-angulares. No fundo, esta é uma moda que está a ser imposta pelo uso de telemóveis, cujas lentes são grande-angulares, e em particular pela proliferação das selfies. Significará isto que se deva aceitar como boa prática o uso de lentes grande-angulares para fazer retratos? Será que, como pretende um articulista do dpreview.com, as pessoas que objectam a este uso das distâncias focais mais curtas são gente de mente tacanha e aversa à novidade?

Embora eu rejeite a classificação tradicional das lentes de acordo com o seu uso mais comum – irrita-me que chamem lentes de retrato às 85mm – e seja contrário a um uso rígido e dogmático das distâncias focais por entender que essa compartimentação é demasiado limitativa, não consigo imaginar lentes piores para fazer retratos que as grande-angulares. Estas lentes, que são aquelas com distâncias focais aproximadamente entre os 18 e os 35mm, têm características que obstam ao seu uso para descrever rostos humanos, as quais podem ser resumidas numa só palavra: distorção.

Tyra-Banks-No-Makeup-SelfieCom efeito, as grande-angulares costumam produzir aquele tipo de distorção esférica a que costuma chamar-se, traduzindo (mal) a partir do inglês, «distorção de barril». As grande-angulares produzem uma curvatura acentuada do campo de visão, pelo que as linhas que se aproximam das margens tendem a surgir distorcidas. Esta distorção tem, evidentemente, efeitos destruidores sobre o rosto humano, fazendo-o parecer mais longo e cilíndrico do que realmente é e podendo, dependendo do ângulo, exacerbar certas feições. Por exemplo, o nariz poderá surgir mais volumoso, o que não costuma favorecer a pessoa retratada.

Como este tipo de distorção se manifesta com maior incidência na periferia da imagem, os objectos colocados no centro sofrem menos distorção – ou melhor: sofrem distorção na mesma, porque ocupam uma grande parte do enquadramento, mas esta é mais uniforme. Se colocarmos a pessoa retratada no centro do enquadramento, os problemas serão atenuados e a pessoa poderá ficar com um rosto mais ou menos normal, mas mesmo com esta cautela – eu não tenho problemas com a colocação do objecto no centro do enquadramento, se tal corresponder a uma opção informada do fotógrafo – subsistem outras dificuldades.

Para que este tipo de retratos resulte, torna-se necessário reduzir a profundidade de campo. Estes retratos requerem informação sobre o fundo, mas não tanta que compita com a pessoa retratada pela atenção de quem vê a fotografia; deste modo, há que isolar a pessoa retratada, o que se faz diluindo o plano de fundo – usando, por outras palavras, o famigerado bokeh. O problema é que as grande-angulares são concebidas para focar sempre no infinito e a sua profundidade de campo é muito extensa. Para desfocar o fundo é necessário usar uma abertura muito larga – e nem todas as grande-angulares são rápidas – e aproximar a lente do rosto da pessoa – o que, dadas as características de perspectiva destas lentes, implica focar a distâncias de 20 ou 30 centímetros. O que, como já devem ter calculado, exacerba a distorção do rosto. Mesmo que este esteja no centro da imagem.

Há mais. A curvatura do campo de visão das grande-angulares faz com que os objectos perto dos cantos surjam alongados, como se estivessem a ser puxados para fora do enquadramento. Esta é mais uma razão para que o rosto deva ser colocado no centro do enquadramento – o que nem sempre resulta numa imagem dinâmica –, já que, se o colocarmos perto de um canto, o crânio tenderá a surgir alongado, como uma bola de râguebi. Por outro lado, as grande-angulares providenciam uma ilusão de profundidade muito acentuada, com os objectos do plano de fundo muito mais diminutos do que os olhos os vêem. Isto significa que o próprio rosto sofre com esta acentuação da profundidade, o que tem o efeito de fazer com que os planos mais avançados surjam desproporcionalmente maiores do que o resto. Partes do rosto como a testa ou o nariz podem surgir de tal maneira exagerados que se tornam grotescos (quem faz selfies sabe do que falo).

Exemplo de bom uso de grande-angular: William A. Allard

A menos que queiramos fazer do retrato uma caricatura, o melhor é não usar lentes grande-angulares para fazer retratos. Se retratistas como Yousuf Karsh ou Jane Bown usaram teleobjectivas para fazer os seus retratos, não foi decerto por terem mentes estreitas nem por serem obtusos e avessos a inovações: foi por as distâncias focais mais longas favorecerem as dimensões dos rostos das pessoas retratadas. Perde-se, evidentemente, a largura da perspectiva das grande-angulares – mas que importa, se o que queremos é que o olhar se concentre no rosto? Se quisermos fazer retratos com a pessoa inserida numa determinada paisagem, mais vale fotografá-la de corpo inteiro – se temos mesmo de usar uma grande-angular – ou usar uma lente de 50mm. Sim, porque não está escrito nos Evangelhos que só se pode fazer retratos com teleobjectivas de 85 mm.

M. V. M.

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