Submersos na mediocridade

Na semana passada deparei com um artigo extremamente interessante sobre o culto da ignorância nos Estados Unidos. Como ando frequentemente pela internet e, em particular, por websites americanos, nada do que está escrito no texto é novidade para mim. Aliás, nem para mim nem para ninguém. Ainda agora, ao ler Vai e Põe Uma Sentinela, leio os argumentos dos brancos sulistas contra a emancipação social dos negros e a retórica é a mesma: mentiras proferidas com uma autoridade que faz com que quem as contrarie passe por néscio. Hitler também se referia dessa maneira aos judeus.

E como é que esta ditadura da ignorância se manifesta no nosso hobby preferido (que é a fotografia, o que não resulta muito claro dos últimos textos do Número f/)? Num abaixamento dos padrões de qualidade. A referência, em termos de qualidade, é o smartphone. Quem disser que a qualidade das fotografias de um smartphone é insuficiente é tacanho e pedante.

Isto é, tal como se refere no texto a que aludi, fruto da internet. Não, não é a questão do acesso generalizado, porque este é, no geral, positivo: é a da forma como certas mensagens são transmitidas, parecendo que a ignorância é tão legítima como o conhecimento. Aliás, o que se passa é que a massa de ignorantes impõe os seus pontos de vista de uma maneira tão esmagadora que o conhecimento é nulificado.

O que é particularmente nocivo neste domínio da ignorância é a aceitação universal de padrões medíocres. Tal como na música pop os One Direction serão sempre mais populares que Nikolaus Harnoncourt (não é horrível a quantidade de vultos que já morreu este ano?), na fotografia aceitam-se como válidos os padrões estéticos que prevalecem nos websites ditos de referência. As pessoas são, aparentemente, obrigadas a gostar de longas exposições à beira-mar e de fotografias com muito bokeh e tratadas com HDR, porque são estes os padrões a que a turbamulta de ignorantes fez a fotografia descer.

E ai de quem contrarie estes gostos. Ter preferências que se afastem destes padrões medíocres é mal visto. Está muito em voga, pelo que vejo nos websites anglo-americanos, chamar a estas pessoas hipsters. Um lomógrafo é um hipster; uma pessoa que goste de fotografar com película é um hipster; quem usar câmaras de grande formato é um hipster. (Aqui para nós, tenho a impressão que quem usa este apodo não sabe muito bem o que é um hipster, mas isto até é apropriado quando o tema é a ditadura da ignorância).

Tudo isto seria irrelevante se fosse um zumbido irritante, mas inócuo, que se ouve ao longe, mas é bastante mais do que isso: serve para entronizar mentiras, perpetuar erros e, sobretudo, transformar tudo num atoleiro indistinto onde o mérito não vem ao de cima e tudo o que prevalece é a banalidade, o relativismo e a amoralidade. O que nos é dito é que ninguém é melhor que ninguém; que tudo o que alguém fizer tem exactamente o mesmo valor que o que qualquer outra pessoa fizer. Neste lodaçal pode-se imitar, mas quem for imitado não pode protestar: afirmam-lhe que o objecto fotografado não é dele e que o imitador tem tanto direito de fotografá-lo como o autor original; e este pode até ser sujeito ao vexame e ao insulto: chamar-lhe-ão pretensioso e arrogante (ou «hipster», quem sabe!). Alguém arrogar-se o estatuto de artista é visto como algo pomposo, desmesurado e ridículo. Aliás, quem andar no facebook (já que falo em lodaçal…) pode eventualmente deparar-se com paródias à arte contemporânea, ridicularizando trabalhos de Picasso, Mondrian e Dalí. Não é por acaso: pretende-se obter o mesmo efeito que os ecrãs que mostram Emmanuel Goldstein em 1984, a distopia cada vez mais actual de George Orwell). Como neste mar de detritos nada é merecedor de distinção ou reverência, coloram-se fotografias dos grandes mestres, imitam-se estilos e, de um modo geral, todos agem como se o facto de terem uma câmara os investisse automaticamente no estatuto de fotógrafos. Suponho que as pessoas – em especial os próprios – perderam de tal maneira a noção das proporções que são levadas a pensar que o que fazem tem o mesmo valor que aquilo que Cartier-Bresson e Winogrand fotografaram.

Aliás, as referências destes medíocres são… hã, medíocres. Balbuciam o nome de Ansel Adams, mas na verdade não conhecem a obra dele. Alguns até devem pensar que ainda está vivo. Tal como Henri Cartier-Bresson, de quem só devem conhecer o Derrière la Gare de St. Lazare mas entendem que esse conhecimento é quanto basta para discorrer sobre ele. (Nem quero mencionar os que dizem que HC-B usaria um iPhone se fosse vivo!)

Portanto, é nisto que estamos. Ser ignorante é louvável; quem busca o conhecimento é pretensioso, quem pensa ou faz diferente é um hipster e quem exerce a arte é ridículo. Tudo faz parte de uma imensa massa incolor, informe e indistinta da qual nada se destaca e tudo se mede pelo mínimo denominador comum. E todos aceitam isto alegremente, ou são induzidos a aceitar à custa da vozearia que se levanta sempre que uma opinião contrária se tenta fazer ouvir. Numa palavra: vivemos submersos na mediocridade.

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s