O que ando a ler

Talvez não devesse, mas tenho de fazer uma confissão: tenho lido relativamente pouco. Há um conjunto de factores que levam a que isto aconteça, os quais vão desde à falta de tempo às dificuldades de visão, passando pela escassez de dinheiro e de espaço onde guardar mais livros.

O que é uma pena, porque gosto de ler. Dá-me prazer abrir um bom livro e só parar de ler quando por qualquer razão se torna impossível continuar. Este mês, porém, não resisti: a privação do tabaco deixa-me mais dinheiro disponível e obriga-me a ocupar o tempo em actividades que me distraiam da tentação de fumar, o que criou as condições perfeitas para comprar livros. Comecei nesta Quinta-feira por um livro publicado nos Estados Unidos no ano passado, de título Vai e Põe Uma Sentinela, de Harper Lee (Ed. Presença).

A razão para ter escolhido este livro foi ter lido a obra mais celebrada da autora, To Kill a Mockingbird, pessimamente traduzida para português (o que inclui o título Não Matem a Cotovia: mockingbird não é «cotovia»; «cotovia», em inglês, é lark ou skylark; mockingbird é um pássaro nativo das Américas pertencente à espécie mimus polyglottos, a qual nada tem que ver com a cotovia). To Kill a Mockingbird – vou chamar-lhe assim para esquecer a tradução altamente desastrada do título da edição portuguesa – foi um dos livros mais interessantes que li. O enredo centra-se num processo judicial e o tema é o racismo, pelo que havia já razões de sobra para que o livro me interessasse, mas fui surpreendido com uma narrativa excelentemente construída, sem hiatos e com um ritmo empolgante, e com uma acção que me deixou suspenso até à última linha. Os únicos reparos a To Kill a Mockingbird são um uso porventura excessivo de plebeísmos (que todavia conferem vividez à narrativa) e de algumas expressões tipicamente americanas que soam irritantes (além de uma tradução para português abaixo de sofrível: por exemplo, miserable significa «infeliz», não «miserável»!).

Vai e Põe Uma Sentinela recorre às mesmas personagens e localização espacial que To Kill a Mockingbird, embora a acção se desenrole cerca de duas décadas mais tarde. A história é narrada a partir da personagem Jean Louise («Scout») Finch e tem lugar num pequeno condado do Alabama. Não vou entrar na acção do livro, porque não quero arruinar a expectativa de quem for lê-lo, mas Vai e Põe Uma Sentinela também tem no centro da acção uma audiência de julgamento – embora os motivos que levaram Atticus Finch, advogado e pai de Jean Louise, a patrocinar os arguidos de ambos os livros sejam completamente diferentes de uma obra para a outra.

Ler Vai e Põe Uma Sentinela depois de ter lido To Kill a Mockingbird pode suscitar reacções adversas, e na verdade as críticas menos que elogiosas que a primeira recebeu resultam do conhecimento prévio de To Kill a Mockingbird. Por exemplo, Atticus Finch é, em Vai e Põe Uma Sentinela, tão diferente da personagem que Harper Lee criou em To Kill a Mockingbird que se torna antagónico, o que pode levar o leitor a repudiar a leitura da primeira por incongruente, contraditória e absurda, o que é uma injustiça.

Para que aqueles que lerem Vai e Põe Uma Sentinela conhecendo To Kill a Mockingbird não incorram nesta rejeição, é importante ter a noção de que a primeira não é uma «sequela» da última: Vai e Põe Uma Sentinela não é a continuação de To Kill a Mockingbird, nem foi essa a intenção de Harper Lee. Vai e Põe Uma Sentinela é uma obra independente, escrita antes de To Kill a Mockingbird e cujo manuscrito fora dado como perdido, mas que serviu de «esboço» – ou, preferivelmente, de base – para To Kill a Mockingbird. (Repito que as personagens são as mesmas e a acção desenvolve-se no mesmo local.) As duas obras têm de ser lidas com discernimento, devendo o seu leitor encará-las como aquilo que são em relação uma à outra: autónomas e distintas. Só assim se pode atribuir valor literário a Vai e Põe Uma Sentinela. Ler esta última sob a influência de To Kill a Mockingbird, ou no pressuposto de que uma é a «sequela» da outra, pode resultar numa desautorização literária de Harper Lee e da sua obra mais recentemente publicada, o que seria profundamente injusto porque Vai e Põe Uma Sentinela é um livro que reúne as mesmas qualidades de To Kill a Mockingbird: a sua leitura é igualmente empolgante. Ponto é que o leitor faça uma separação clara de ambas as obras de uma escritora que merecia maior atenção do que aquela que recebeu em vida aqui na Europa.

Outro factor de que o leitor se deve abstrair é o das circunstâncias que rodearam a edição de Vai e Põe Uma Sentinela. Suspeita-se que a obra foi editada e publicada sem a autorização de Harper Lee, ou pelo menos com essa autorização dada de forma deficiente. Há três versões diferentes a este respeito: segundo uma, Harper Lee (que morreu este ano) sofria de demência senil; outra, ligeiramente diferente, não vai ao extremo de atribuir senilidade à autora, mas afirma que esta não estava em condições de prestar o seu consentimento validamente e teria assinado qualquer papel que alguém de confiança lhe pusesse à frente; e uma outra clama que Harper Lee estava perfeitamente lúcida e consciente quando celebrou o contrato de edição. No meio desta vozearia, prefiro concentrar-me na leitura do livro e qualificar esta questão como secundária. Já há demasiada gente a encher a internet de disparates.

M. V. M.

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