Iris Grace e o domínio do mundo pelos gatos

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Hoje não vai haver queixas amargas nem recomendações úteis, mas estéreis. O texto de hoje vai ser sobre um daqueles temas capazes de aquecer o coração do facínora mais empedernido existente à face da Terra.

O autismo é assunto que, infelizmente, entrou no meu rol de interesses por ter um sobrinho que sofre uma variação dessa doença, que é a Síndrome de Asperger. Por outro lado, este sobrinho tem uma irmã de três anos – quase quatro – que é, como todas as meninas de três anos, um nunca-acabar de ternura (quem tem ou teve na família uma menina de três anos sabe-o bem).

E eu tenho um gato. O Sousa não é exactamente um animal sociável (detesta crianças!), mas por vezes levanta-me dúvidas sobre que espécie domina realmente a vida na Terra e quem é o dono de quem.

Pois bem: esta semana li uma história maravilhosa sobre uma menina autista e um gato. A menina chama-se Iris Grace e o gato chama-se Thula. À Iris foi diagnosticado autismo numa idade muito precoce: um ano. Desde então os pais procuraram ajuda naquelas formas de terapia que agora estão em voga: inscreveram-na na equitação, mas sem resultados; compraram um cão, mas a Iris permaneceu fechada no seu mundo interior.
Depois veio o Thula. A menina, que até então parecia interessada por pincéis e cavaletes, desenvolveu um potencial inimaginado para a pintura; mais importante ainda, o Thula deu-lhe sociabilidade e abertura para o mundo exterior.

É preciso dizer que os gatos são animais que escolhem os seus donos e que o seu comportamento diante deles é muito diferente daquele que mostram diante de outras pessoas. Quando escolhem o dono, porém, são capazes de uma lealdade e amizade muito superiores às dos cães. Só quem tem ou teve um gato é capaz de compreender isto. Chegam a ter comportamentos imitativos e a sua inteligência permite-lhes fazerem-se entender em todas as circunstâncias.

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Não sei exactamente por que se deu esta relação entre a Iris e o seu gato. Os gatos gostam de pessoas previsíveis e serenas, características que em regra só encontram nos adultos. Só aceitam crianças se conviverem com elas desde muito cedo. Penso, a julgar pelas várias gerações de crianças com que tive contacto, que é a beleza que faz com que os gatos fascinem as crianças.

Seja como for: a Iris desenvolveu, desde que lhe deram o Thula, um senso artístico que não é mais que a emanação do seu mundo interior, agora desbloqueado pela confiança que o gato lhe trouxe. Não se pode dizer que as obras da Iris sejam revolucionárias ou particularmente inovadoras – mas tenhamos as coisas em perspectiva: é uma criança de cinco anos! Quantos há de nós que, com o décuplo da idade, só são capazes de fazer porcarias? Eu, pelo menos, incluo-me nesta última fileira… Algumas pinturas da Iris recorrem a técnicas e a um nível de abstracção de que a maioria dos adultos é incapaz.

Já agora também me parece justo dizer que a Iris foi útil para o Thula: graças à companhia da menina, o Thula é agora um gato superior que perdeu o medo da água e é capaz de nadar e de tomar banho de imersão. E de andar de bicicleta. Eu, só de pensar em pôr o Sousa na banheira e dar-lhe banho, fico com calafrios. (E nem gosto de pensar em metê-lo numa transportadora e levá-lo ao veterinário de automóvel!)

É sempre assim: os gatos é que ficam a ganhar. Daqui a uns anos toda a gente se lembrará do gato Thula e poucos serão capazes de recordar as pinturas da menina Iris. É assim que, quase sem nos darmos conta, a raça felina vai inexoravelmente tomando conta do planeta até à capitulação total da espécie humana.

P. S.: para a multidão de leitores irada por esperar tanto por um texto no Número f/ e sair-lhes um que não é sobre fotografia, fiquem descansados porque há uma relação entre a história da Iris e do Thula e a fotografia: a mãe da Iris é fotógrafa e é a autora da fotografia que, com a devida vénia, reproduzi neste texto. Sossegai as vossas mentes.

M. V. M.

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