Luz

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Eu não gosto de luz directa. Aquela luz que alguns consideram ideal, iluminando o objecto bem de frente, só serve para tornar as fotografias monótonas e banais. Caminho numa manhã de sol e olho em frente, com o sol por trás de mim: é uma luz demasiado factual, demasiado real. Olho para trás, contra o sol: vejo dezenas de oportunidades fotográficas!

Eu sou assim: a iluminação de que gosto tem de ser intensa e ter tanto de luz como de sombra. Não me importo de fotografar em dias cinzentos ou de nevoeiro, mas prefiro os dias de sol. E quanto mais oblíqua for a luz, melhor: favorece sombras longas. Não há nada mais aborrecido do que uma luz «correcta»: em fotografia, quase tudo o que é «correcto» é monótono e inimaginativo.

Tudo isto tem uma razão de ser: eu gosto de contrastes pronunciados. A luz frontal não me dá o tipo de contraste de que gosto. A luz frontal é demasiado factual, demasiado documental. É a medida do que os nossos olhos vêem em circunstâncias normais, mas a fotografia não é uma circunstância normal. Além disto, o contraste confere alguma abstracção às imagens, mesmo que o objecto seja o mais real que existe à superfície da Terra. Mas o meu gosto por contrastes pronunciados é sobretudo uma consequência da minha predilecção pelo preto-e-branco. O preto-e-branco necessita do contraste mais do que a cor; nas fotografias a cores o contraste é importante, mas a sua ausência pode ser explorada com melhores resultados que no preto-e-branco; neste a falta de contraste apenas serve para tornar as fotografias deslavadas e desinteressantes.

Por outro lado, interessa-me a maneira como a luz incide sobre os objectos. Especialmente sobre as pessoas. Tenho desenvolvido uma predilecção por perspectivas em que apenas uma parte do motivo fique iluminada, definindo as suas formas ou feições, deixando tudo o demais para as sombras. Isto foi algo que aprendi com Ray K. Metzker, embora não me atreva a ir tão longe na supressão quase completa dos meios tons como este mentor que apenas conheci tardiamente.

É esta a luz de que gosto: natural e intensa. A coisa pior que me pode acontecer é, como é fácil imaginar, apanhar uma sucessão de dias chuvosos. Debaixo de céus carregados as sombras desaparecem, os contrastes atenuam e o tipo de linguagem tem necessariamente de ser outro. O que é válido, evidentemente, mas resulta em imagens graficamente menos fortes do que desejaria.

Estas minhas preferências são completamente antagónicas com o conselho, habitualmente dado quando se fotografa com película a preto-e-branco, de expor para as sombras. No meu caso o que pode ficar oculto nas sombras não é importante. O que me interessa é uma diferenciação forte entre tons claros e escuros. Expor para as sombras é apenas uma daquelas regras de bolso, útil quando se quer reter pormenor que de outro modo as sombras ocultariam, mas tem os enormes inconvenientes de poder resultar em fotografias sem contraste e de estourar as altas luzes. Como com todas as regras de fotografia, não se pode ser dogmático nem subserviente: as regras são como as rodinhas auxiliares das bicicletas: quando se aprende o equilíbrio, desmontam-se. No caso da exposição, prefiro expor para as altas luzes ou deixar que a câmara escolha uma exposição intermédia, no caso de não ser possível apontar para as altas luzes.

Estas minhas preferências colocam-me frequentemente dilemas éticos. Por vezes vejo fotografias em que não consegui a diferenciação tonal que procurava; como digitalizo os negativos, tenho à mão de semear instrumentos que me possibilitam dar à imagem o contraste que pretendia. Isto deixa-me frequentemente a hesitar entre manipular deliberadamente a imagem ou mantê-la como está e conformar-me com o resultado. Por vezes uso a edição, se as modificações não exigirem demasiado trabalho. Afinal de contas, a edição não é nenhum anátema. Quando a principal forma de mostrar fotografias era a ampliação, eram inúmeras as possibilidades de retocar a fotografia no ampliador: podia-se nivelá-la, fazer ajustamentos horizontais ou verticais, dar mais ou menos contraste, etc. E todos sabemos os extremos a que Ansel Adams e W. Eugene Smith chegavam no laboratório. Agora pode-se fazer tudo isto digitalmente. Não me parece assim tão maléfico, mas uma coisa é certa: dá-me muito mais prazer acertar com a exposição certa antes de premir o botão do obturador.

Seja como for, isto era sobre luz. Compreender a natureza da luz é a primeira coisa que cada um deve aprender. Infelizmente, muitos apenas se interessam por mostrar um determinado objecto ou cena. A fotografia não é nada disso: é mostrar como vemos os objectos. É uma ilusão. O que se vê numa fotografia não é o objecto, mas a luz que incide sobre ele. Só agora começo a compreendê-lo, depois de quase seis anos a fotografar.

M. V. M.

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