Avis Rara

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Provavelmente não devia escrever e publicar este texto. Afinal de contas estou a atravessar a provação que é deixar de fumar e a irritabilidade que acompanha a privação do tabaco pode ser (ou ter sido) má conselheira, mas aqui vai:

No Domingo, dia 21, resolvi ir fotografar. Como me convenci que ainda é possível fazer fotografias minimamente originais na Casa da Música, fui até lá – embora essa deslocação não estivesse inicialmente nos meus planos.

Os Domingos de tarde não são muito bons para fotografar ali. Geralmente há muita gente e a probabilidade de um photobomber estragar uma fotografia é extremamente elevada. Contudo, na parte que escolhi não havia assim tanta gente, o que me deixou satisfeito.

A parte que escolhi foi o vão defronte à janela do bar da Casa da Música, com o seu piso de metal escuro, de linhas rígidas e tensas, a contrastar com o ondulado e o tom claro do pavimento em frente. Naquele lugar, mais ou menos debaixo da escadaria, estava uma avis rara – um sujeito a fotografar, assim como se estivesse escondido para fotografar furtivamente. O avistamento deste indivíduo deixou-me a pensar: – será que também faço esta figura? Acreditem que me perturbou: foi como se me visse a mim mesmo. Por vezes a procura de ângulos diferentes obriga-me a permanecer em lugares estranhos – o que é agravado quando espero muito tempo por uma oportunidade de fotografar.

O facto de aquele indivíduo estar naquele lugar fez com que procurasse um posto distante dele. Não por repulsa ou outro motivo semelhante, mas porque, se fosse para perto dele, acabaria por fazer fotografias iguais às dele. E este é um escrúpulo que mantenho, apesar desta era da pilhagem em que vivemos.

Em dado momento surgiu-me uma oportunidade: uma pessoa colocou-se num bom enquadramento. Disparei. Quando acabei, pressenti um vulto movendo-se atrás de mim. Voltei-me: era o avis rara! Quando o encarei, balbuciou qualquer coisa a que nem sequer me dei ao trabalho de responder: desculpou o facto de estar a dez centímetros de mim dizendo que estava à espera que eu acabasse de fotografar a cena para fotografar a seguir.

Como disse, fiquei sem palavras. Para aquele indivíduo, é perfeitamente natural e aceitável fazer uma fotografia exactamente igual à que outra pessoa acabara de fazer. Isto é, no meu entender, tão crasso e absurdo que nem sei muito bem como comentar. De facto, fazer fotografias no exterior da Casa da Música não é lá muito original, mas quando o faço tenho o escrúpulo de não fazer igual ao que já vi. É uma mania que tenho, se quiserem, mas não gosto de imitar. Não gosto de clichés (é possível que faça muitos, mas pelo menos procuro evitá-los), não faço fotografias iguais a outras que já vi e sou frequentemente acometido do delírio de pensar que a fotografia é uma forma de expressão artística e uma emanação de uma mente criativa.

Aparentemente, nem todos têm estes problemas de consciência. O ave rara não parecia tê-los. Não sei nem compreendo o que vai na mente de pessoas como esta, mas deve ser qualquer coisa parecida com «são só fotografias», ou algo semelhante. Para mim uma fotografia nunca é apenas uma fotografia. Pode não ser nenhuma obra-prima, mas pelo menos é pensada para ser uma expressão da maneira como vejo as coisas. E isto é algo muito pessoal. Deste modo, é-me difícil aceitar a imitação e o facto de haver quem, deliberadamente, faça fotografias iguais às que outra pessoa fez – iguais, pelo menos, no objecto e no enquadramento. Eu respeito o facto de alguém estar num determinado lugar a fotografar e afasto-me: é a coutada dele. Infelizmente, nem todos são assim. Para alguns, fotografar o que outros fotografaram antes deles é a coisa mais natural do mundo.

Curiosamente, o ave rara tinha, não apenas uma, mas duas câmaras penduradas ao pescoço. Estranhamente, ambas iguais: eram duas Fujifilm X-E2. Para que alguém quer duas câmaras digitais iguais é algo que me escapa por completo, mas ele lá saberá e, de resto, não é nada comigo. Seja como for, isto só prova que não é o equipamento que faz o fotógrafo.

Por que hesitei em escrever isto? Porque sabia de antemão que ia ser um texto azedo e não gosto de dar textos azedos aos leitores. E também porque o ave rara pode estar entre os meus leitores. (Se estiver, provavelmente não entende nem metade do que quero dizer com os meus textos.) No entanto, sou tão avesso à imitação e à vulgaridade que este pequeno episódio me pareceu merecedor de escárnio. Tenham paciência…

M. V. M.

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