O prémio World Press Photo 2016

Hope For a New Life, por Warren Richardson

É a mesma história todos os anos. Sempre que é dado a conhecer o prémio principal da World Press Photo, logo vem o chorrilho de ataques dos conservadores (chamemos-lhes assim). Desta vez, porém, as coisas exacerbaram-se porque a fotografia vencedora mostra um pai a passar uma criança através de uma falha no arame farpado que o governo húngaro instalou ao longo da fronteira entre a Sérvia e a Hungria para tentar conter a passagem dos refugiados.

Antes de mais, vamos ao que é relevante. A fotografia de Warren Richardson é um portento. É – deixem-me dizê-lo, sem receio de incorrer em exagero – uma fotografia de que W. Eugene Smith ou Robert Capa se orgulhariam. É uma fotografia que perpetua os ensinamentos dos melhores fotojornalistas: é expressiva – conta uma história, independentemente das circunstâncias de tempo e de lugar – e é um prodígio de composição. Tecnicamente, há demasiado ruído e falta-lhe alguma nitidez, mas isto explica-se facilmente: se Richardson tivesse usado um flash, teria dado o alarme e exposto a família de refugiados. Assim, teve de usar a abertura máxima, um valor ISO de 6400 e um tempo de exposição de 1/5. O mesmo é dizer que a única luz disponível era a do luar. Em todo o caso, nada disto é importante – o que conta é a imagem. E esta é pungente e expressiva. Merece bem o prémio que recebeu.

Claro que, sempre que são conhecidos os prémios da World Press Photo, logo os trolls de direita vêm com toda a sua artilharia, com os seus argumentos indignos de seres humanos e a sua dogmática rígida e mentirosa: desde os terroristas infiltrados até aos agressores sexuais da noite de passagem de ano em Colónia, não há mal que os refugiados não façam. Mas a alimária que profere estas maluquices não me interessa: aquilo em que esta fotografia me deixou a pensar foi na Europa – na nossa Europa.

A maneira como a Europa está a lidar com a questão dos refugiados é simplesmente indecorosa. Os países que dantes eram conhecidos por estarem atrás da Cortina de Ferro têm as atitudes mais abjectas e desumanas que se possa imaginar. Isto é a semente que a URSS deixou, o resquício de brutalidade que permaneceu vivo depois da queda dos regimes comunistas, ainda que sob outra forma. Quem esperava que aqueles países corruptos até à medula, desiguais e oligárquicos se transformassem, por qualquer milagre, em democracias livres e baseadas no respeito pela pessoa humana, bem pode deixar de fazer figura de néscio.

Depois há o fascismo emergente que está a contaminar toda a Europa: a Dinamarca aprovou uma lei que chega ao extremo de confiscar bens dos refugiados; a Áustria está a alinhar as suas políticas pela dos paísezinhos proto-fascistas a que o lúgubre Donald Rumsfeld chamou «A Nova Europa»; por todo o lado há reacções de hostilidade, fomentadas por mentiras e meias-verdades, contra os refugiados; e a Alemanha, que aos olhos dos néscios aparenta passar por uma potência humanitária, comporta-se na verdade com um cinismo e uma falsidade verdadeiramente torpes.

O que a Alemanha realmente queria dos refugiados, até Outubro ou Novembro do ano passado, não era o bem-estar deles; não foi movida pelo respeito profundo pela pessoa humana que a Alemanha abriu as portas aos refugiados e invectivou – brandamente, discretamente – os países que obstaram à entrada daqueles: fê-lo por lhe ser conveniente. Porque entre aqueles refugiados há mão-de-obra qualificada que ficará extremamente barata à Siemens e à Volkswagen. Contudo, agora que tem um problema de excesso de refugiados, a Alemanha vitupera os parceiros da União por colherem poucos refugiados. Este cinismo frio da Alemanha causa-me arrepios.

Ao pensar nisto, vêm por acréscimo reflexões sobre o que é a União Europeia. Um castelo de areia pronto a desabar, digo eu. Aquilo que foi um sonho de Schuman, Monet, Delors e tantos outros é hoje um monstro, uma construção artificial, irracional e inconsistente baseada no interesse dos países mais poderosos e que de União já nada tem. Em lugar de procurar soluções para os refugiados, a União Europeia – desta vez na sua veste de animal tecnocrático, cego, ganancioso e profundamente estúpido, incarnado por Jeroen Dijsselbloem e Wolfgang Schäuble – preocupa-se com décimas do défice dos orçamentos de Portugal e da Grécia; e, ao mesmo tempo que impõe – arbitrariamente e ao arrepio da soberania nacional – os caprichos austeritários e ineficientes de Schäuble e Dijsselbloem aos países mais fracos, com o fim de vergá-los e submetê-los à autoridade dos mercados (i. e. dos especuladores), agacha-se cobardemente perante a chantagem do Reino Unido, que pretende ficar na Europa só com as vantagens da União e sem nenhuma das obrigações. Sem perceber que, com a cedência a esta chantagem ultrajante, está a apressar a desagregação da Comunidade.

Na verdade, nada disto é importante perante o sofrimento de quem foge de uma guerra absurda na qual o Ocidente prefere conformar-se com uma possível vitória do Estado Islâmico a aliar-se com a Rússia e o presidente da Síria Bashar El-Assad; simplesmente, os refugiados mereciam outro tratamento ao chegarem à Europa. Num lado, o que procura restringir ou impedir a sua passagem, são os terroristas e os violadores; no outro, o que finge acolhê-los, são mão-de-obra barata. Sinceramente, não sei qual é pior: Viktor Orban pode ser uma besta, mas ao menos diz o que pretende. Ao contrário da Chanceler Merkel. E os refugiados, ao chegar à Europa, livram-se da guerra das bombas para serem vítimas da propaganda imunda dos reaccionários que cada vez mais impõem a sua voz demencial.

Por vezes sinto vergonha de ser europeu.

M. V. M.

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