As minhas desculpas

Quero pedir desculpa aos leitores. Os meus textos estão cada vez mais espaçados, escassos e desinteressantes. Isto de manter um blogue único – este é um mérito que me reconheço – sobre fotografia (único em Portugal, claro está) é por vezes difícil. E é tanto mais difícil quanto mais se quer que ele obedeça a um certo padrão de qualidade.

A verdade é que não têm faltado temas relevantes. Nas últimas duas semanas foram lançadas duas câmaras extremamente interessantes – a Olympus PEN-F e a Pentax K-1, a câmara de formato 36×24 pela qual os pentaxianos esperaram quinze anos –, mas o Número f/ permaneceu em silêncio. Mais importante ainda para um blogue que se quis desprender da técnica e ater-se à arte fotográfica, ontem foram conhecidos os prémios da World Press Photo – mas o M. V. M. não escreveu uma linha sobre eles.

Há razões para que isto aconteça. As minhas fotografias estão num beco sem saída, encurraladas na procura de uma originalidade que se tornou vulgar. Fotografia de rua a preto-e-branco? Mais cliché que isto só mesmo os HDR de paisagens ao pôr-do-sol. Não me sinto muito motivado para fotografar, o que se repercute na vontade de escrever. Não sei como vou resolver este impasse. Preciso de criar um estilo novo, de fazer algo diferente – de trazer à fotografia algo que os outros não possam trazer, na expressão do professor de fotografia de Mason Evans Jr. em Boyhood.

Por outro lado, deixo-me levar pela ideia de que ao escrever para o Número f/ estou a roubar tempo a actividades mais úteis, ou pelo menos mais interessantes. O facto de muitas vezes dar por mim a jogar jogos no computador é de um grotesco verdadeiramente sensacional!

Mas há algo que tem sido verdadeiramente decisivo nesta esterilidade que assolou o Número f/. É que o seu autor está a deixar de fumar. Muitos poderão não ver qualquer relação entre a falta de textos e a abstinência forçada, mas ela existe: a privação rouba capacidade de concentração e induz uma sensação de tédio (ou neura, se preferirem) que me obriga a estar permanentemente em movimento. Fiz mais caminhadas nas últimas três semanas do que nos três meses que precederam esta tentativa.

Tudo começou quando consultei um médico no dia 23 de Janeiro, por causa de uma lesão muscular. Uma vez que a dor se manifestava na região dorsal, fiz um Raio-X que enquadrou o tórax. Ao ver o Raio-X (que agora é digitalizado, e não gravado em folhas de plástico), o médico perguntou-me, com um sotaque inequivocamente galego: «Quando é que você vai deixar de fumar?»

Respondi-lhe: os pulmões estão pretinhos, não…?». O olhar com que o médico me respondeu foi o susto que eu precisava para finalmente me resolver a deixar de fumar.

Agora que já passaram quase três semanas, estou finalmente a livrar-me da ansiedade induzida pela privação. Já me sinto em condições de me sentar a escrever (desde que não seja acometido pelo pavor de engordar por passar demasiado tempo sentado, quero eu dizer).

Ao mesmo tempo, tomei a decisão de ser mais cuidadoso com a saúde. Eu fui sempre o oposto de um hipocondríaco (um hipercondríaco?), já que nunca me preocupei nem um pouco com a minha saúde, mas o tempo pregou-me a partida de me aproximar da idade filosófica a que William Wordsworth aludiu no seu maravilhoso poema Esplendor na Relva. E esta é uma idade em que o corpo pede cuidado. Apesar de me exercitar, e a despeito da minha temperança, a máquina desgasta-se e desregula-se por si mesma. Devo cuidar dela enquanto não é demasiado tarde.

Por tudo isto, peço novamente desculpa aos leitores por ter escrito tão pouco nestes últimos tempos. Não posso prometer que vou passar a escrever dois textos por dia – nem sequer posso (com)prometer-me a escrever um por dia – mas mais abundância haverá daqui para a frente. Seguramente.

Obrigado pela vossa paciência.

M. V. M.

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