Da pobreza e da felicidade

Down and Out Today

Na semana passada comecei a seguir um blogue chamado Peixinho de Prata. É sobre livros e leituras, o que me interessa (como os leitores que têm paciência para os textos fora-do-tema sabem muito bem).

A leitura do último (até à hora em que escrevo, i. e. 21h38 do dia 9 de Fevereiro de 2016) texto do Peixinho de Prata levou-me, por um encadeamento mais ou menos lógico mas talvez não muito óbvio, a uma discussão que tive há duas semanas num espaço de comentários (sim, às vezes também me dá para isto). O que motivou a discussão foi um artigo do dpreview.com sobre duas pessoas que fizeram uma espécie de reportagem fotográfica em Cuba.

Antes de prosseguir, porém, deixem-me explicar por que associei o texto no Peixinho de Prata a essa discussão. O texto é sobre um livro de Matthew Small – autor de quem nunca havia sequer ouvido falar – intitulado Down And Out Today: Notes From The Gutter, que versa o tema da pobreza. Baseando-me apenas na recensão da autora do Peixinho de Prata, Sónia Almeida Dias, penso que a leitura me manteria interessado: o livro, aparentemente, aborda a relação entre pobreza e felicidade.

Ora, o tema da discussão que mantive no espaço de comentários do dpreview.com foi exactamente este. A riqueza não é sinónimo de felicidade. É meu crer, embora não tenha visitado Cuba, que os cubanos são bem mais felizes que os nativos dos países das civilizações ocidentais. Porque felicidade não tem que ver com bens materiais: a felicidade é uma realização interior, os bens materiais são externos a nós. Podem satisfazer-nos momentaneamente, criando porventura uma ilusão de felicidade que, por ser transitória, precisamos de repetir periodicamente – o que leva à acumulação e, invariavelmente, à decepção. Acredito, mesmo sem necessitar de qualquer pesquisa para confirmá-lo, que a taxa de suicídios em países como Cuba é infinitamente menor do que em qualquer país da civilização ocidental.

Melhor exemplo que o cubano é, porventura, o do Butão de há uma década. Aqui, neste minúsculo país dos Himalaias, o Rei Jigme Singye Wangchuck declarou que não o preocupava o Produto Nacional Bruto; o que lhe importava era a Felicidade Nacional Bruta do seu país e do seu povo. Sábio rei este. Será que alguma vez vamos ouvir um governante da Europa ou dos Estados Unidos discorrendo sobre a felicidade do seu povo?

Não pretendo com isto dizer que Cuba e o Butão são sociedades perfeitas – embora a Cuba dos Castro seja infinitamente melhor que a de Fulgencio Batista e tenha razões para julgar ser preferível viver no Butão a viver na China. O que digo – e penso ser este o sentido do livro de Matthew Small – é que estes exemplos, tal como os das cidades da Índia e do Nepal que inspiraram Small, suscitam questões sobre o que é verdadeiramente importante para a vida das pessoas. Seriam os cubanos e os butaneses mais felizes se tivessem acesso aos bens que os ocidentais gostam de impor ao mundo? Ou será que vivem, apesar de toda a pobreza, apesar do isolamento, apesar de não terem uma noção de prosperidade semelhante à do ocidente, protegidos dessa aculturação e que, por via de não estarem sujeitos ao mecanismo perverso da criação de necessidades, gozam a vida de uma maneira mais pura e genuína?

Não pretendo, com isto, fazer a apologia do pobre mas feliz. O meu interlocutor na discussão do dpreview.com – um advogado holandês, vejam lá com quem me fui meter!… – entendeu as minhas palavras desta maneira, mas não era essa a minha intenção: era, tão-somente, a de questionar a autenticidade da vida no ocidente. A pobreza não é, nunca será, um bem; não é algo de desejável e deve lutar-se contra ela – mas primeiro é necessário determinar o que se entende por pobreza.

Quanto a mim, pobreza é viver sem ter aquilo que é essencial a uma vida condigna: é não ter habitação decente, não ter cuidados de saúde, educação, justiça e acesso ao trabalho. E é também não ter os bens necessários a uma existência confortável: os equipamentos domésticos essenciais, por exemplo. Dificilmente se pode ser feliz se a vida não assentar, no mínimo, neste patamar de bem-estar. A luta dos nossos dias é para que todos possam, pelo menos, ter acesso a este limiar de qualidade de vida. O dinheiro e os bens que excedam esse patamar não determinam a felicidade: apenas acrescentam à satisfação, mas tornam-se nocivos se a sua obtenção se tornar em si mesma um fim da vida. A felicidade não se afere por esses bens: afere-se pela realização pessoal, por nos cumprirmos enquanto pessoas. O ocidente está tão afastado desta realidade simples que desvirtuou completamente a existência humana. Qual é a surpresa de haver tantos neuróticos, tantos sociopatas e tanta gente frustrada nos países ditos civilizados?

M. V. M.

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1 thought on “Da pobreza e da felicidade”

  1. Com algum (muito) atraso vim dar a este post. Captou exactamente a essência do que eu quis transmitir no texto, e que era também a essência do livro. Mesmo em países ocidentais existe muita pobreza, e muitas vezes que vem de dentro, da falta de sentido na vida e de realização pessoal. O que importa mais do que quanto temos, é o que fazemos com o que temos. Obrigada por esta reflexão.

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