Da validade do conhecimento apriorístico

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Todo o conhecimento científico necessita de ser validado pela experimentação; se não se materializar através da experiência, nunca será explicação nem modo de proceder: será meramente especulação.

A experiência, por si só, de pouco vale: o empirismo é por natureza casuístico e, como tanto, incapaz de estabelecer regras universais. Contudo, a experiência tem o papel importante de comprovar o conhecimento teórico.

Ainda não basta. Para que o conhecimento possa erigir-se em lei (no sentido normativo, não no jurídico, que hoje não é aqui chamado), é necessário que a experiência seja repetível e os resultados sejam consistentes.

Antes que pensem que reabri um compêndio de Filosofia do 12.º Ano de Escolaridade, deixem-me esclarecer que isto tem tudo que ver com fotografia. Mais concretamente com algo que jurei a mim mesmo nunca experimentar, mas que, por um conjunto de circunstâncias fortuitas, acabei por fazer: expus um rolo expirado.

Todo o meu conhecimento acerca dos rolos expirados era apriorístico: isto é, existia sem experimentação. O que, usando uma linguagem mais terrena, significava que falava do que não sabia – ou melhor: do que pensava que não sabia, mas que, curiosamente, se revelou verdadeiro, apesar de algumas dúvidas. Sabia, por exemplo, que o decurso do tempo diminui a sensibilidade da película. Sabia-o por ter lido algures, não por ter conhecimento através da minha experiência. Não podia, deste modo, afirmar que essa asserção era verdadeira (é uma regra elementar de bom senso não falar daquilo que não se tem a certeza, nem fazer afirmações que não se podem provar).

Pois bem: cortando a eito, posso dizer que é verdade. Os rolos a preto-e-branco expirados comportam-se como se tivessem um ou dois EV de sensibilidade a menos. Um rolo 400 ASA expirado comporta-se como se fosse um rolo 200 ou 100 ASA, consoante seja mais ou menos antigo. O que significa, evidentemente, que necessita de tempos de exposição duas ou quatro vezes mais longos do que um rolo 400 ASA normal (i. e. não expirado).

A minha experiência foi com um Ilford Pan 400 que deveria ser exposto antes de Julho de 2000. Era, portanto, um rolo com idade para se emancipar pelo casamento. Quando vi as digitalizações, fiquei horrorizado com a quantidade de grão. Eu sabia – desta vez por experiência própria – que os Ilford de velocidade ASA elevada são muito granulosos, mas este é um grão verdadeiramente deletério que destrói os contornos finos dos objectos, tal como o ruído digital quando é muito exacerbado. Além disto, as imagens estavam, na sua maioria, claramente subexpostas.

O grão e a subexposição estão relacionados. O grão não é mais que cristais de prata que não foram convenientemente expostos à luz. Deste modo, faz todo o sentido inferir que as películas expiradas perdem sensibilidade. (Refiro-me apenas às películas para preto-e-branco; as coloridas colocam problemas ainda mais sérios por causa da deterioração das gelatinas RGB.) Curiosamente, algumas imagens, feitas sob luz mais favorável, têm um aspecto aceitável – mas esta impressão só dura até as aumentarmos e visualizarmos as áreas de sombras.

Apesar de me faltar o elemento da repetibilidade para confirmar por completo as minhas conclusões, penso que não voltarei a usar rolos expirados. Eles não me dão o tipo de qualidade que pretendo das minhas fotografias. Eu suporto o grão do Ilford HP5 e do Kodak Tri-X (e gosto, pelo menos em algumas imagens, do seu aspecto distinto), mas o que vi nestas digitalizações do Pan 400 é simplesmente repulsivo: é como se tivesse fotografado com uma compacta digital com ISO 800 e tivesse convertido as imagens para preto-e-branco.

Decerto os resultados teriam sido melhores se tivesse aumentado os tempos de exposição, mas suspeito que a própria qualidade do grão é afectada pela passagem do tempo. Prefiro não tentar. Mesmo se os rolos expirados são baratos, a revelação e a digitalização não o são. E pagar a digitalização e revelação de rolos cujas fotografias se mostrarão insatisfatórias seria, no mínimo, uma estupidez.

Não usem rolos expirados. Se tiverem mesmo de fazê-lo (por exemplo, por terem grandes quantidades de película guardada para além da data até à qual devia ser usada), multipliquem o tempo de exposição por dois ou por quatro, mas o que é mesmo boa ideia é usar rolos novos. Evitem cair na armadilha de pensar que poupam dinheiro ao comprar rolos expirados: mais vale fazer menos fotografias, expondo rolos novos de forma conscienciosa, do que tirar milhares de fotografias que apenas vão embaraçar-vos pela falta de qualidade. Se querem mesmo fazer milhares de fotografias por dia, é mais inteligente fotografar com uma câmara digital. Mesmo se é o próprio leitor quem revela e digitaliza os rolos, é uma estultícia perder tempo com algo que nem sequer tem virtudes estéticas que possam caracterizá-lo como um estilo.

A experiência limitou-se a comprovar o que eu já sabia: os rolos expirados são uma ilusão e uma perda de tempo. Contudo, teve a utilidade de me mostrar a extensão e alcance destes postulados. Por outras palavras, ainda foi pior do que eu pensava. Esqueçam os rolos expirados.

M. V. M.

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