Ernst Haas e o poder de uma fotografia

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Eu devia dar mais atenção a Ernst Haas. Afinal de contas, ele não foi menos importante do que muitos fotógrafos que reverencio. Pelo contrário, Haas foi dos fotógrafos mais importantes e influentes do Século XX – de tal maneira que ainda hoje a sua fotografia tem repercussões na que se faz hoje em dia. E era austríaco, o que significa que era originário do país artisticamente mais rico do planeta (está bem, pronto: juntamente com a França – mas este último país fica a anos-luz da Áustria quanto à música.)

Contam as biografias que o reconhecimento de Ernst Haas se deu quando Warren Trabant mostrou a Robert Capa algumas fotografias que o austríaco fez da chegada a Viena de prisioneiros austríacos de guerra, que haviam sido presos na URSS aquando da II Guerra Mundial. Ao ver as fotografias, Capa convidou Haas a integrar a Magnum, que havia acabado de criar juntamente com Henri Cartier-Bresson, George Rodger, David «Chim» Seymour e Werner Bischof.

É precisamente uma destas fotografias da chegada dos prisioneiros de guerra que elegi como tema deste texto. Nesta fotografia uma mulher mostra a um ex-prisioneiro de guerra a fotografia de um soldado (possivelmente seu filho). O que esta fotografia tem de notável é o facto de contar uma história, sem grande necessidade de ser situada nos contextos temporal e espacial. Nesta fotografia estão bem patentes os sentimentos antagónicos das personagens, mas existe nela a magia de, sendo documental, ser também aberta à imaginação de quem a vê. Esta fotografia conta uma história, mas uma com o final aberto: quem era o soldado da fotografia, e o que era ele àquela mulher? E o ex-prisioneiro que passava – que significava aquele sorriso, além da alegria de voltar à pátria? E para quem voltava ele? A mulher irá encontrar o soldado? Que terá acontecido a este último? Esta fotografia de Ernst Haas deixa uma liberdade imensa à imaginação de quem souber ver uma fotografia.

Há muito mais nesta fotografia que a simples imagem de duas pessoas que se cruzam momentaneamente. O que torna esta fotografia interessante é os sentimentos opostos das personagens e a maneira como eles se encontram no espaço e no tempo, formando um contraste que dá significado à imagem: a mulher é completamente alheia às emoções do ex-prisioneiro que passa; tudo o que ela quer dele – tal como de todos aqueles a quem já se teria dirigido e a quem se dirigirá – é a informação: é saber se ele viu o soldado da fotografia que tem na mão. A felicidade dos regressados de nada lhe interessa, pelo menos naquele momento; quem sabe se o sorriso e a altivez do ex-prisioneiro lhe terão parecido insultuosos, mediante a sua própria angústia… É visível que a mulher está apreensiva, angustiada, porventura desesperando por não ver o seu soldado; no seu rosto vê-se já a angústia, mas também há no olhar uma reprovação, como se culpasse o ex-prisioneiro por ser tão insensível à sua infelicidade. O ex-prisioneiro, por seu turno, passa pela mulher sorrindo, completamente indiferente a ela e à sua angústia. Poderá mesmo suspeitar-se se aquele sorriso não é de escárnio, e se a altivez não é sobranceria. Ele é um sobrevivente; os outros, os que ficaram para trás, não interessam. A sobrevivência é o que se vê na expressão do ex-prisioneiro.

O contraste entre as personagens é tão forte, e a presença delas na imagem tão intensa, que mais ninguém parece importar: os outros são meros figurantes, não tendo qualquer papel na economia da narrativa. São aqueles dois que dão vida a esta fotografia: a mulher, com o seu desespero enervado; o ex-prisioneiro, com a sua felicidade egoísta. Estes sentimentos são tão contraditórios que introduzem uma tensão evidente na imagem. O homem não quer saber da velha e da sua fotografia para nada: o que conta é estar de volta, é a sua liberdade. A mulher sente-se ignorada, sentindo talvez o ânimo a esmorecer. A alegria do ex-prisioneiro é-lhe indiferente: o que ela procura é a sua própria alegria – a de rever o soldado da fotografia. Alegria que não encontra e que fica tão mais distante quanto maior é a indiferença de quem passa. É impossível deixarmos de nos comover com a angústia da mulher, e é certamente fácil lamentar a indiferença altiva do ex-prisioneiro – mas a felicidade deste diz-nos muito: diz-nos que a vida é feita de felicidade e infelicidade; que a alegria de uns é a tristeza de outros.

É possível que Ernst Haas não tivesse a intenção de narrar nada disto; mas, seja por acaso ou intenção, é a tensão entre sentimentos tão diferentes que torna esta fotografia absolutamente notável. Ernst Haas viria a evoluir depois destas fotografias – foi um pioneiro da cor e, nos seus últimos anos, explorou os efeitos possibilitados pelas câmaras e lentes –, mas nunca voltou a capturar um momento tão significativo como este. Mesmo se Haas não é reconhecido por esta fotografia (ou pelas demais feitas nessa mesma altura), esta é uma das fotografias mais humanas, sensíveis, dramáticas e comoventes que conheço.

M. V. M.

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