Uma história lamentável

Img - 021

Há alguns dias descobri um edifício deveras interessante: era – já vamos ver por que uso aqui o particípio passado – a Casa do Cinema Manoel de Oliveira.

Descobri-la não foi fácil. Na verdade, antes de conhecer a sua localização precisei de saber da sua existência, o que também não foi nada fácil. Soube-o quando a Casa já não cumpria a função para a qual foi construída, que presumo ter sido a de promover o cinema português no Porto. Ficarei sem saber se alguma vez o fez.

Erigir uma Casa do Cinema no Porto faz sentido. Foi aqui que o cinema português nasceu, já que foi no Porto que Aurélio da Paz dos Reis nasceu e viveu e foi aqui que fez aquela que se pode considerar a primeira película portuguesa, A Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança. Baptizá-la com o nome de Manoel de Oliveira também faz sentido, porque ele era um portuense e um cineasta.

Que aqueles que tiveram a ideia de construir a Casa do Cinema tenham recorrido a um arquitecto como Souto de Moura também faz sentido, evidentemente, e a verdade é que o edifício tem uma arquitectura extremamente interessante, com aquelas janelas gigantescas projectando-se para o exterior que evocam as lentes de um projector ou as telas de projecção dos cinemas (pelo menos eu penso que uma destas terá estado na mente de Souto de Moura quando desenhou o imóvel).

Todos estes são conceitos válidos e, em princípio, tudo deveria ter corrido muito bem: a Casa promoveria o cinema na terra do mais importante cineasta português, servida por uma arquitectura interessante; seria de imaginar que tal edifício despertaria interesse, não apenas em Portugal – e, em particular, no Porto –, mas em todo o mundo. Não foi nada disto que aconteceu.

O conceito podia ser válido, mas a execução foi, no mínimo, desastrosa. Foi decidido construir a casa num local que apenas os residentes conhecem, numa parte nova da cidade que serve estritamente fins residenciais. Reitero que ninguém, a não ser os moradores, passa por aquele lugar. Mesmo que fosse um lugar concorrido, porém, seria difícil descobrir a casa: a sua localização é referida como sendo na Rua de Viana de Lima, mas quando se chega a esse lugar não se vê nada. O acesso à Casa faz-se pela Rua de Bartolomeu Velho. Contudo, mesmo com isto em mente é difícil dar com a Casa: a vista está quase inteiramente obstruída por um muro de betão feio e anónimo e é preciso olhar para o alto dele – presumindo que se sabe que a Casa fica ali, o que exige um conhecimento prévio que não existe porque nunca foi devidamente divulgada – para finalmente se ter um vislumbre da Casa. Depois é necessário contornar o muro e subir umas escadas para finalmente se ver a Casa. Dir-se-ia que quiseram esconder a Casa o mais possível para mantê-la secreta, como se fosse a casa de um milionário recatado e cioso da sua privacidade.

Quando finalmente descobri a Casa, fiquei chocado pelas suas dimensões: esperar-se-ia que o edifício fosse amplo, para albergar salas de projecção e um espaço museológico – o que seria o mínimo exigível, atentas as funções propostas para a Casa –, mas o edifício é minúsculo. Além de ser invisível da via pública, como vimos no parágrafo anterior, e da sua dimensão lilliputiana, o terreno no qual foi construído é exíguo, o que induz uma sensação de claustrofobia antes mesmo de se entrar na Casa – o que, aparentemente, não pode ser feito porque esta está sempre fechada ao público. A arquitectura é espectacular, mas perde-se pela dimensão do terreno envolvente e pelo seu enquadramento urbanístico, já que a Casa está rodeada de imóveis decididamente anódinos.

Tínhamos, deste modo, uma Casa do Cinema inacessível, que faz pensar num forte inexpugnável, escondida dos olhares e mantida ferozmente em segredo. Não surpreende, perante tudo isto, que ninguém frequentasse a Casa do Cinema, ou sequer soubesse da sua existência. A sua implementação foi um desastre e não serviu os fins para que foi construída: um fracasso total. A Câmara Municipal demorou algum tempo a perceber que a sua construção foi um erro trágico e fez a única coisa que alguém com dois dedos de testa faria – vendeu-a.

A Casa do Cinema foi vendida em hasta pública e arrematada por uma fundação denominada Fundação Sindika Dokolo, instituída por um indivíduo do mesmo nome que é, curiosamente, marido da empresária Isabel dos Santos, a qual, por seu turno, é (como muitos devem saber) filha do Presidente da República Popular de Angola. Que se dane. Ao menos a tal fundação poderá dar um destino útil ao edifício. E, como a Casa passou para o domínio privado, a sua existência é assunto que deixa de nos preocupar. Quanto ao dinheiro que entretanto se perdeu, provavelmente nunca vamos saber qual o seu montante (eu não acredito que o valor da aquisição da Casa tenha sido superior ao do seu custo). Enfim, fica aqui o aviso para quem gostar de arte africana contemporânea. Uma história lamentável que não teve um fim nada feliz.

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s