O caso Polaroid (onde se juntam história da fotografia e fotos de mulheres nuas)

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«Polaroid» é praticamente um sinónimo de «fotografia instantânea», o que significa que a Polaroid foi quase sempre motivo de irrisão e desprezo – e não apenas pelos entusiastas da fotografia.

O que é profundamente injusto. A fotografia instantânea é muito melhor que o chimping (o gesto de ver a fotografia no ecrã da câmara depois de premir o botão do obturador) e poupa inúmeras etapas: não há lugar à revelação e ampliação, não é necessária a edição e impressão, não há um workflow: carrega-se no botão do obturador e sai rapidamente uma fotografia impressa. É uma forma de fotografar que é, ao mesmo tempo, descontraída e instantaneamente gratificante.

Claro que há alguns inconvenientes. A qualidade nem sempre é a melhor, as fotografias são, em regra, muito pequenas e as câmaras são pouco versáteis por serem de lente fixa. Acresce que as câmaras são grandes, para poderem alojar as cassetes com o papel fotográfico, e que este último sai bastante caro. As Polaroid não são câmaras para usar todos os dias.

Há, porém, uma câmara que torna todos os inconvenientes irrelevantes e supera alguns defeitos, convertendo-os em qualidades: a Polaroid SX-70. Esta câmara tem, antes de mais, a característica de imprimir num formato maior que o habitual. E é uma SLR, com um visor que transmite exactamente a imagem que a lente capta. Além de ser rápida, no sentido em que a fotografia é ejectada e sai da câmara já totalmente revelada (embora as gelatinas demorem alguns dias a solidificar, o que permite manipular a imagem de forma criativa). A Polaroid SX-70 é, deste modo, uma câmara que pouco ou nada deve às outras em qualidade.

A Polaroid mereceria mais algum respeito se as pessoas soubessem alguns factos acerca dela. O primeiro é que as Polaroid tinham um adepto fervoroso em Ansel Adams. Sim, leram bem: Ansel Adams colaborou de perto com Edwin H. Land para desenvolver o conceito de fotografia instantânea. Se o leitor for tão cínico que a menção de Ansel Adams o deixe indiferente, repare nisto: a lista de fotógrafos que usaram câmaras Polaroid inclui alguns dos fotógrafos mais importantes de sempre: O próprio Ansel Adams, William Albert Allard (que descobri recentemente), Harry Callahan (não, não é o Dirty Harry), Paul Caponigro, Lucien Clergue, Elliot Erwitt, Franco Fontana, Robert Frank, Ralph Gibson, Barbara Hitchcock, Robert Mapplethorpe, Helmut Newton, Jeanloup Sieff e Neal Slavin – entre muitos outros. Se a Polaroid fosse ridícula ou desprezível, não teria decerto interessado a estes fotógrafos. (Se o leitor pensa que estou a tentar esmagá-lo sob o peso destes nomes, é verdade: estou mesmo.)

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Toto Frima por Toto Frima

Depois há o caso Toto Frima, fotógrafa holandesa nascida em 1953 e que, essencialmente, se fotografou a si mesma. Nua. Poucos fotógrafos aproveitaram a natureza das cores dos instantâneos da Polaroid como Toto Frima, e ainda menos conseguiram construir uma obra fotográfica tão importante baseando-se na fotografia instantânea. As fotografias de Toto Frima estão entre as mais interessantes das últimas décadas do Século XX; é, em definitivo, uma fotógrafa cuja obra merece uma visita.

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Uma das inúmeras Polaroids de Toto Frima

A fotografia instantânea está a conhecer, em paralelo com a de película, uma revivescência notável. A Fujifilm, por exemplo, tem nas suas Instax o grosso das vendas de material fotográfico, mas se não nos contentarmos com as fotografias minúsculas das Instax, hoje podemos comprar por preços bastante em conta uma Polaroid SX-70, que era uma máquina bastante cara no tempo em que se vendia em primeira mão.

OK, a fotografia instantânea pode ser usada hoje por hipsters – mas há muito de bom a dizer sobre ela: vemos os resultados imediatamente e, sobretudo, já impressos: não temos de esperar pela revelação nem de editar as fotografias e imprimi-las. E, com uma câmara decente, os resultados são surpreendentemente bons: as cores são agradavelmente saturadas, mas sem desvios cromáticos consideráveis, e a nitidez pode variar entre o bom e o excelente. Que há a perder com isto?

M. V. M.

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