Arquitectura contemporânea

Img - 019

Eu preciso de me proibir de ver o vídeo de Prepare Your Coffin, dos Tortoise (esperem um pouco, que este texto não é mais um sobre música). Bem vêem: um tema musical excelente, ilustrado por um vídeo em que aparece um fotógrafo à caça de fotografias de arquitectura contemporânea, tinha forçosamente de me inspirar… que digo? Este vídeo compele-me a procurar paisagens arquitectónicas! Sempre que o vejo, apetece-me sair e fotografar (mas de preferência com lentes mais curtas que a usada pelo protagonista do vídeo, a qual parece ser uma 135mm: não é a distância focal que eu aconselharia para arquitectura).

Sendo assim, por que hei-de me proibir de ver o vídeo – ou mesmo de ouvir Prepare Your Coffin, já que a audição me remete para o vídeo e sua temática? É que o Porto não é uma cidade que se preste a este tipo de fotografia. É uma cidade de arquitectos – são ou trabalharam no Porto Arménio Losa, Cassiano Barbosa, Fernando Távora, Alcino Soutinho e os Pritzkers Álvaro Siza e Souto de Moura – mas é uma cidade relativamente pobre em arquitectura contemporânea. Os bons exemplos de arquitectura estão, ou demasiado dispersos (sob a forma de imóveis solitários, por vezes mal integrados na paisagem urbana), ou demasiado concentrados. Não existe um único lugar, na cidade do Porto, do qual se possa dizer que é caracterizado pela sua arquitectura homogénea, seja ela contemporânea ou não.

O Porto é uma cidade antiga e também uma cidade velha. Por vezes vêem-se edifícios que sobressaem pela sua arquitectura, mas geralmente pelo pior dos motivos, que é o de destoar da paisagem. Por vezes essa dissonância torna-se interessante, como acontece com a Casa da Música ou o edifício Vodafone, mas na maioria dos casos o contraste é francamente desagradável. Isto é, evidentemente, o resultado da falta de critérios urbanísticos sólidos, o que por seu turno demonstra que foram muito raras as ocasiões em que o Porto teve gente com uma visão para a cidade à frente dos seus desígnios. Seja como for, a construção de imóveis contemporâneos em locais de casas antigas tem o duplo (e paradoxal) efeito de desfear a paisagem e anular o valor arquitectónico do imóvel contemporâneo. Acresce que muitos destes imóveis são, digamos assim, de época – o que é um eufemismo de datados.

Os lugares a que me referi como «concentrados» são muito poucos e são demasiado pequenos e isolados para que possamos referi-los como pólos arquitectónicos. É o caso da Faculdade de Arquitectura, que é um lugar fascinante mas é – um pouco como a Casa da Música – um corpo estranho implantado numa área onde a construção nada tem de contemporânea.

Por tudo isto, é um pouco frustrante procurar lugares onde possa satisfazer a minha curiosidade fotográfica pela arquitectura contemporânea. Ainda por cima, as construções fotografáveis são fotografadas todos os dias até à exaustão, ao ponto de se terem tornado verdadeiros clichés: fotografar na Casa da Música? Sim, é possível – mas correndo o risco de ser muito pouco original, porque já há milhares de fotografias feitas ali. Há sempre a Faculdade de Arquitectura, o Museu de Arte Contemporânea ou o Bairro da Bouça, mas são concentrações de arquitectura que rapidamente perdem o interesse. As construções isoladas, implantadas no tecido urbanístico sem critério, podem ser interessantes, mas o seu interesse também se esgota rapidamente.

Há duas semanas tive conhecimento da existência de uma Casa do Cinema Manoel de Oliveira, na Foz. É um projecto de Souto de Moura e a fotografia que vi num jornal atiçou-me o interesse. Fui até lá. O imóvel está escondido no meio de imóveis anódinos e situa-se por trás de muros inescrutáveis. Não admira que a Câmara Municipal do Porto se queira desfazer dela: ninguém a vê, ninguém a conhece, nada se passa ali. Ao fim de três ou quatro fotografias, estava esgotado o potencial fotográfico do edifício.

Decididamente, o Porto não é um bom lugar para quem se interessa por fazer fotografia de arquitectura. Se Hugo Schmölz tivesse estado confinado a viver no Porto, teria morrido de tédio.

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s