Imitadores

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Beirut ao vivo por Anja Weber

Há uma banda portuguesa chamada Brass Wires Orchestra. São oito ou nove elementos e tocam música que é caracterizada por influências da música popular de países como o México, mas é sobretudo uma pop orquestrada. Quem os ouvir pode ficar bem impressionado, mas não se conhecer bem a cena da música alternativa. Porque, neste caso, descobrirá de imediato que os Brass Wires Orchestra não passam de uma imitação de uma banda americana chamada Beirut.

Os Beirut são brilhantes. A sua música tem o mesmo espírito que os filmes de Emir Kusturica, mas sabem ser sofisticados e não se cingem a fazer música de raiz popular. Em contrapartida, os seus imitadores portugueses não se conseguem desprender dos lugares-comuns que copiaram dos Beirut – os trompetes, as vocalizações, os ritmos; estabeleceram-se com uma fórmula que copiaram dos Beirut e são incapazes de se desviar dela. Falta-lhes a originalidade, o talento e a liberdade de que os Beirut gozam.

Curiosamente, alguma imprensa e rádio portuguesas dão um crédito imenso aos Brass Wires Orchestra. Isto é difícil de compreender – pelo menos para mim, que entendo que a arte é uma forma de expressão de ideias próprias e não aceito que alguém se aproveite do trabalho dos outros para atingir o sucesso. O problema é estarmos num país onde a imitação, ao invés de ser ridicularizada e denunciada, é aplaudida. Olhando para a cena musical portuguesa, há muito pouca originalidade. Só os Paus e os Capitão Fausto escapam à tentação de seguir o caminho mais fácil que é a imitação. De resto, os portugueses estão para a música como os construtores japoneses para os automóveis: quando imitam, não passam da mediocridade e da banalidade; quando tentam ser originais, só fazem porcarias (o Toyota Mirai equivale à música do Samuel Uria, ou vice-versa).

Na fotografia passa-se o mesmo. Há gente a imitar outros descaradamente e a receber palavras laudatórias por fazê-lo. Alguns ganham nome e reputação com as suas imitações. É um fenómeno que não se cinge a uma disciplina, estando presente em todas as artes. Contudo, na fotografia é mais fácil – especialmente se o imitado for relativamente desconhecido e o imitador gozar de alguma popularidade. No que respeita aos estritos amadores, é demasiado frequente verem-se imitações – ou vê-los imitarem-se uns aos outros.

Diferente de imitar é seguir um estilo, uma tendência ou uma escola. Neste caso a temática pode ser semelhante, mas há diferenças significativas na estética, na linguagem ou simplesmente no estilo. A imitação também não se confunde com a usurpação, que é a apropriação de uma obra de outrem que a faz passar por sua. A imitação não é tão grave como a usurpação, mas, como diria um sobrinho meu, vai dar ao mesmo: é aproveitar-se do que outra pessoa fez, é usar a lei do menor esforço.

Eu não suporto que digam que a imitação é a forma mais sincera de homenagem. Primeiro porque não me parece que um criador goste de ser homenageado por aproveitadores medíocres sem talento; depois porque imitar é grave, contrário à ética e indecoroso: os imitadores, como parasitas, aproveitam-se do esforço criativo de outrem para singrar. É como viver à pala do trabalho dos outros, o que ninguém (a não ser quem vive assim) decerto aprova; mas com os imitadores há uma espécie de complacência que roça a cumplicidade. Não compreendo nem posso, de maneira nenhuma, subscrever esta aprovação moral da imitação. Apesar de não ser ninguém na fotografia, já me aconteceu ser imitado: quando vi as imitações, senti-me violado. Só quem nunca criou – e, consequentemente, nunca pode ter sido imitado – é que pode afirmar este dislate da «forma de homenagem». Não é nada disso: é um esbulho, uma violação.

O imitador é uma pessoa destituída de talento, sem um mínimo de visão, sem uma ideia que possa dizer que é sua e sem escrúpulos éticos ou morais. É um medíocre, um parasita. Na melhor das hipóteses é um leviano sem consciência da gravidade dos seus actos ou alguém que, puerilmente, imagina que ninguém se aperceberá do plágio. Intriga-me que pessoas assim se entreguem à música, à literatura ou à fotografia. Não sei por que o fazem, se não têm nada de seu a dizer: podem ter sucesso – que será sempre obtido à custa dos outros, o que se me afigura condenável –, mas mais tarde ou mais cedo serão expostos. Por que imitam, então? Para gozar esse êxito efémero ao qual necessariamente se seguirá a vergonha e a humilhação? Não deviam estas últimas sobrelevar à glória transitória do falso e imerecido reconhecimento?

Ah, esperem: aqui em Portugal os imitadores nunca serão sujeitos à vergonha e à humilhação. O que eles fazem não é pilhar as ideias dos outros: é… homenagear. Esqueçam o que escrevi: está tudo bem. Os Brass Wires Orchestra são maravilhosos e o que fazem não é imitar os Beirut: é homenageá-los. Alguns até poderão argumentar que eles nem sabiam da existência dos Beirut, como aquele meu imitador que jurou nunca ter visto a fotografia que imitou (o que era mentira, claro).

M. V. M.

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