David Bowie (1947-2016)

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Não esperavam que eu deixasse de dizer o que sinto sobre a morte de David Bowie, pois não? Que posso eu dizer sobre ele? Posso dizer, por exemplo, que é um daqueles músicos que se veneram. Eu venerava David Bowie. Pela sua música, pela sua figura, por ser David Bowie. Ouvi a sua música, vi-o no cinema – eu vi Merry Christmas Mr Lawrence no ano de estreia, numa sala de cinema verdadeira e própria –, vi os seus vídeos, soube tudo sobre ele. Incluindo que o seu nome verdadeiro era David Robert Jones e que a pupila dilatada foi o resultado de uma cena de pancada com um amigo aos treze anos que quase o cegou e lhe prejudicou a noção de profundidade.

Portanto, David Bowie era uma figura que se venerava. Hoje foi um dia triste para mim, mas não sou um fan incondicional da música de David Bowie. A minha relação com ela foi semelhante à que tenho com um amigo: perdoo-lhe e aprendo a viver com as suas falhas por causa das qualidades. Porque estas sobrelevam aos defeitos. Foi assim com a música de Bowie: o que ele fez de mau é perdoado pela magnanimidade do que fez de bom e pela sua importância. Mas nada disto significa que fosse a correr comprar o último LP de David Bowie só porque era o último LP de David Bowie.

A minha história com a música de David Bowie começou quando eu tinha catorze ou quinze anos e um exemplar de Heroes apareceu em minha casa. Fiquei instantaneamente hipnotizado pela canção Heroes, mas não posso dizer que o álbum é completamente do meu agrado. Não tenho interesse por Beauty And The Beast, Joe The Lion ou The Secret Life Of Arabia. Em contrapartida, Heroes, com a sua guitarra contínua e a atmosfera densa, interessou-me desde logo. Percebi, não sei bem como nem porquê, que aquela canção ia entrar para a história da música pop e atravessar as gerações. Não me enganei. Mas Heroes tinha mais surpresas: os três instrumentais que aparecem a meio do lado B. Fabulosos.

Com efeito, o lado experimentalista de David Bowie é o menos conhecido da sua carreira, mas é também o melhor. É nele que se pode ouvir o génio. Ouvir V-2 Schneider – diz-se que este tema se chama assim em homenagem aos Kraftwerk e ao seu co-fundador Florian Schneider –, Warszawa ou Subtterraneans é prova de que Bowie era muito maior do que a lista das suas canções que atingiram o topo das tabelas de vendas poderia fazer supor.

Depois de conhecer Heroes, interessei-me pelo passado de David Bowie. Descobri Space Oddity, Starman, The Man Who Sold The World, Ziggy Stardust. Excelentes – Bowie tinha uma voz fabulosa –, mas nada que se comparasse com Heroes. Completado que estava o meu conhecimento da carreira de Bowie, segui-a a partir de Heroes. Low e Lodger são continuações lógicas de Heroes, mas a partir daí – i. e. quando acabou a colaboração com Brian Eno – o meu interesse por David Bowie esmoreceu. Ashes To Ashes é uma excelente canção, mas o álbum Scary Monsters é muito desinteressante.

Depois vieram os anos 80 e, com eles, os duetos com Freddy Mercury e Tina Turner, o odioso Let’s Dance e outras vulgaridades que me envergonho de alguma vez ter ouvido. O meu interesse pela música de Bowie desapareceu por completo. David Bowie não deixou de merecer a minha veneração – não pelo que ia fazendo ao longo desses anos, mas pelo que fez antes. Por Heroes, por Warszawa, por V-2 Schneider, mas também por Space Oddity.

David Bowie foi um dos artistas mais importantes de sempre da música pop. O que ele fez nos anos 60 e 70 do Século passado foi de tal maneira influente que o fez tornar-se num gigante, numa figura de dimensão verdadeiramente universal. Merece todo o meu respeito, mesmo se o que fez depois é de menor valor (quando não é simplesmente insuportável). Não podia deixar de merecer a minha homenagem neste dia triste em que tomei conhecimento da sua morte. Adeus, Camaleão.

M. V. M.

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