Do novo e do velho

https://www.phaseone.com/~/media/NEW_WEB/P1000/XF-IQ3-80MP-80mmLS-front_web.ashx

O ano de 2016 ainda mal começou e já foram lançadas duas novidades interessantes. Ou melhor: uma novidade interessante e outra que não é uma novidade em sentido técnico e, como veremos, não é muito interessante, embora possa servir como pretexto para uma boa discussão.

Comecemos pela mais relevante: a Phase One, fabricante dinamarquesa de câmaras e cassetes digitais de médio formato e de um dos melhores softwares de edição de imagem, o Capture One, lançou uma câmara nova, a Phase One XF, que é vendida por cerca de USD $49,000 sob a forma de um sistema que compreende o corpo XF, a lente Schneider Kreuznach 80mm f/2.8 e a cassete IQ3, a qual inclui um sensor, fabricado pela Sony, com 100 MP. Sim, leram bem: cem megapixéis.

Se este número de megapixéis aparecesse num sensor de outra marca qualquer, com excepção das que se dedicam ao médio formato (Hasselblad, Mamiya Leaf, Phase One, Leica e Pentax, se não me esquece nenhuma), eu estaria neste momento a perguntar para quê? Um número tão grande de megapixéis compromete a qualidade da imagem por causa da relação sinal-ruído, com este último a atingir níveis inaceitáveis (é esta a razão por que os sensores Foveon da Sigma não têm o sucesso que se poderia esperar), mas este é um sensor de médio formato: os pixéis cabem lá todos confortavelmente, sem detrimento da qualidade da imagem.

Perguntar para quê tantos pixéis também seria perspicaz se este sistema não fosse Phase One. Uma contagem da ordem dos 20 a 30 megapixéis é mais que suficiente para uma utilização normal, e não adianta ter tanta resolução se não se tiver lentes capazes de explorar esse potencial. Acrescem as exigências que os ficheiros deste tamanho colocam aos computadores: não é apenas o armazenamento das imagens, que são enormes, mas é sobretudo o esforço que o seu processamento exige da placa gráfica. Simplesmente, perguntar para quê 100 MP num sistema como estes não é pertinente. O Phase One XF não é para ser adquirido por amadores, mesmo que estes sejam riquíssimos. O lugar deste sistema é nos melhores e mais exigentes estúdios de fotografia, que não se contentam senão com o melhor equipamento existente. Aqui sim, pode tirar-se partido da qualidade de imagem incrível de que o Phase One XF é capaz. O ruído não é importante, porque estas câmaras profissionais de médio formato são para ser usadas num tripé, com sensibilidades baixas e condições de luz controladas. E estou certo que as lentes Schneider Kreuznach têm a qualidade necessária para explorar o potencial deste sensor.

Que traz isto de novo? Independentemente da área do sensor, 100 MP é uma espécie de Rubicão que é transposto. Se há uma área em que o digital não conseguiu ainda impor-se à película pela qualidade de imagem, é a do médio formato. Com este sistema da Phase One, ficou-se mais perto. A Sony já fazia os melhores sensores para os formatos APS-C, 1”, 4/3 e full-frame; agora afirma-se como a maior produtora de sensores. O que pode ser bom, conquanto não leve à criação de um monopólio de facto que implique a estagnação dos desenvolvimentos tecnológicos.

E agora algo completamente diferente. Porque, se há um domínio em que o digital superou largamente a película, é o dos pequenos formatos de vídeo. Os formatos 8 e Super 8 foram assassinados pelo digital e partilham a vala comum com os cartuchos e cassetes áudio. Simplesmente, a Kodak, possivelmente inebriada pela escolha da sua película para filmar o último episódio da saga Star Wars, decidiu lançar uma câmara de vídeo que filma no formato Super 8, em pequenas cassetes que têm uma duração de dois minutos e meio e custam um mínimo de cinquenta dólares cada uma. Ou seja: temos aqui uma câmara de filmar que, pretendendo ser retro, é apenas uma tentativa de ressuscitar um formato muito justamente morto: o Super 8 não tinha qualidade, era caro e limitado na sua utilização. Merece ter o mesmo destino que os cartuchos áudio, dos quais felizmente já ninguém se lembra.

Isto é um revivalismo que não faz qualquer sentido. Esta câmara só tem desvantagens. Outros regressos, como o do vinil e da película fotográfica, justificam-se porque as tecnologias alternativas não são satisfatórias: o CD nunca conseguiu soar tão bem como um bom vinil, a fotografia digital não ultrapassou as qualidades de boas películas – se esquecermos a película negativa a cores de formato 135, que não é melhor que aquilo que as boas câmaras digitais conseguem, e os formatos menores como o 110 e o APS. A Kodak é uma câmara que não percebo bem para quem é: só se for para fanáticos da película que só existem na cabeça do director de produtos da Kodak. Não há nada que justifique a compra de uma câmara de filmar cujo desempenho não deve ser melhor que o da câmara vídeo de um telemóvel actual (embora tenha o mérito de evitar a praga crescente dos vídeos verticais…).

M. V. M.

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