Distopia, parte 2

Voltando ao artigo da Time sobre aquilo que o seu autor, Stephen Mayes, entende ser o futuro da fotografia: neste ensaio é estabelecida uma analogia entre o desenvolvimento da fotografia e o crescimento humano. No entender de Mayes, a fotografia conheceu a sua infância no tempo da película, atingiu a puberdade com a fotografia digital e está agora a entrar na adolescência. Esta analogia é interessante, mas parte, quanto a mim, de um ou dois pressupostos errados: por um lado, apenas vê o fenómeno da fotografia através da tecnologia e, por outro, baseia-se na premissa de que a tecnologia comanda a evolução da fotografia. É, deste modo, uma análise tecnocêntrica da fotografia que eu rejeito liminarmente. Embora seja verdadeiro que o mercado se tem antecipado aos consumidores – especialmente desde o advento da fotografia digital –, historicamente a realidade é a inversa: o mercado evoluiu de acordo com a procura.

Por seu turno, esta análise de Mayes está errada porque a fotografia não está a entrar na adolescência. Conheceu a infância nos tempos dos daguerreótipos, entrou na adolescência com a invenção do formato 135 e as possibilidades que este abriu, era absolutamente madura nos anos 2000 e morreu com o digital. Morreu de overdose. Suicidou-se. Hoje a fotografia nada significa: é algo que as pessoas fazem porque podem, porque têm os meios para tanto. A fotografia casual não cumpre a missão de preservar memórias de momentos efémeros, mas significativos para a vida das pessoas, porque se tornou ela mesma efémera. A fotografia existe hoje para ser vista e esquecida em segundos. E o niilismo, um vazio inconcebível.

Na distopia feita de sensores curvos, imagens tridimensionais e outros avanços tecnológicos de que Mr. Mayes nos fala não há, aparentemente, lugar para a imaginação, para a criatividade, para o factor humano (perdoem-me o lugar-comum). Ele bem escreve acerca do potencial enorme das tecnologias que refere, mas nada do que está naquele artigo contraria o facto de a fotografia estar morta. Agora o que há é imagiologia digital. Deste modo, Mr. Mayes escreveu, não sobre o futuro da fotografia, mas acerca do futuro da tecnologia de imagem. O que não é de grande proveito: vai servir apenas para que o lixo que diariamente é despejado às toneladas na internet seja produzido com recurso a tecnologias cada vez mais sofisticadas. Não vejo em que isto pode ajudar as pessoas: as imagens publicadas obsessivamente, como se todos tivessem interesse em saber o que cada um faz em cada momento das suas vidas, vão continuar a ser efémeras e niilísticas, o que contraria os desígnios da fotografia; e as imagens feitas com propósitos artísticos por aqueles que ainda não compreenderam que a fotografia morreu não retirarão grandes vantagens de tanta tecnologia.

A percepção da imagem nos dias de hoje mudou tanto que é erróneo usar o termo «fotografia» (neste aspecto concordo parcialmente com Stephen Mayes). Desapareceu para sempre o tempo em que olhávamos demoradamente os álbuns de fotografias da família, ou quando nos especávamos durante longos minutos à frente de uma fotografia numa exposição. As imagens contemporâneas são vistas por pessoas que não tomam mais que alguns segundos para as ver (não vale a pena usar a expressão «observar», porque observar demora demasiado e ninguém está para isso). São, deste modo, feitas para ser vistas e apreciadas de imediato. É inútil fazer fotografias que exijam alguma análise e requeiram um bom entendimento e quem produz essas imagens sabe-o. Isto aplica-se também à «fotografia artística»: ninguém demora os olhos numa imagem. Esta vale apenas pelo seu significado imediato. Não há lugar para a subtileza quando todos têm pressa de ver milhares de imagens nas horas longas e vazias que perdem no facebook.

Não, não é exagero dizer-se que a fotografia morreu. A indústria conduziu-a ao suicídio. Hoje o que há é apenas a documentação do narcisismo de cada um, a obsessão insensata de mostrar-nos – a nós ou às nossas supostas habilidades – a todos. Como pode chamar-se «fotografia» a algo que, em lugar de fixar um fragmento efémero do tempo e do espaço, se tornou ele mesmo num fenómeno efémero? Esta é a contradição na qual a fotografia sufocou e morreu. O que há hoje tanto pode ser produzido com recurso a um telemóvel de baixo custo como usando um aparelho equipado com todas as tecnologias com que gente como Stephen Mayes possa sonhar: é indiferente. Uma selfie não tem mais valor se for tirada em 3D: continua a ser uma excrescência de cérebros embotados.

M. V. M.

 

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