Distopia, parte 1

Ontem – o mesmo é dizer no ano passado – li um artigo na Time que me suscitou dois tipos de reflexão. Uma é a que tratarei amanhã; outra é suscitada pelas pessoas a quem os gadgets mais interesse despertam: aquelas que já ultrapassaram os trinta anos de idade.

O artigo em questão é sobre o futuro da fotografia. Quando este tópico é suscitado, reparo que são sempre as pessoas mais velhas a propugnar os novos desenvolvimentos trazidos com a fotografia digital, desde a edição de imagem aos smartphones, aos drones e ao vídeo incorporado nas câmaras. Quem é que vemos a fazer figura de parvo fotografando com tablets? Reparem bem quando andarem nas ruas e verão que são sobretudo mulheres com mais de quarenta anos.

Esta obsessão com as maravilhas tecnológicas é algo que me escapa. De onde estou, com os meus cinquenta e dois anos de existência à face da Terra, vejo os progressos e avalio-os conforme sejam ou não úteis e necessários; se constituem um progresso real, uma melhoria na vida das pessoas – ainda que pouco significativa –, não tenho problemas em adoptá-los e elogiá-los; afinal de contas, uso o computador durante uma larga porção do meu tempo de vigília. Simplesmente, se pagar contas, marcar viagens e reservar quartos no Airbnb através da internet é útil, já ler livros com um Kindle me parece disparatado – embora ressalve que estes aparelhos têm a faculdade de armazenar livros em quantidades incalculáveis, sendo verdadeiras bibliotecas electrónicas. (O problema é se o aparelho avaria, o que será equivalente a um incêndio que devore a nossa biblioteca física.)

Os miúdos, por seu turno, não têm necessidade de louvar os progressos da electrónica porque vivem com eles. A minha sobrinha de três anos domina um smartphone com uma desenvoltura que me deixa de queixo caído. Vivem de acordo com o seu tempo; não precisam de idolatrar os gadgets porque fazem parte da sua realidade.

Mas estes consumidores frenéticos de novidades de meia-idade são diferentes: eles fazem questão de adquirir tudo o que o mercado lhes impinge como novidade depois de terem sido submetidos a uma lavagem cerebral que os deixou convencidos que não podem viver sem um phablet. Este comportamento tem certamente explicações sociológicas e, sobretudo, psicológicas, mas o que leva ao certo estas pessoas a louvar os gadgets? Vejo nisto uma tentativa desesperada de essas pessoas se agarrarem ao presente, como se este se resumisse à tecnologia. Estas são pessoas que querem provar – sobretudo a si mesmas – que se mantêm jovens; é como se quisessem assegurar a si mesmas que vivem o presente e o futuro não as deixará para trás. É, deste modo, uma manifestação de insegurança, de medo de se sentirem velhas e ultrapassadas.

Acrescentemos a isto a criação de necessidades de que a indústria vive e a adesão cega dos consumidores a uma ideia de progresso radioso que lhes é impingida pelo mercado. Tudo somado, temos uma verdadeira compulsão para adquirir todas as novidades que são lançadas, bem como as suas actualizações e adereços como as apps. Isto é o que se chama consumismo.

Este movimento é imparável. Quando dermos por nós, toda a nossa vida estará dominada pela electrónica. Reflectir sobre isto traz-me à mente uma analogia – que penso não ser disparatada de todo – com a globalização. Muitos vêem estes fenómenos como imparáveis e entusiasmam-se com eles, mas é apenas a maneira que encontram de não serem ultrapassados pela realidade (ou pela percepção distorcida que têm da realidade). Outros conformam-se com ela e tiram partido dos seus benefícios. Outros, ainda, incorrem em reacções antagónicas: tal como a globalização teve o efeito de exacerbar nacionalismos e regionalismos que pareciam ultrapassados, também o progresso tecnológico trouxe reacções opostas, como o renascimento do vinil e da película. E não se pense que estas reacções são meramente marginais, confinadas a um grupo de excêntricos: as vendas de discos de vinil têm aumentado todos os anos e o último episódio de Star Wars foi inteiramente filmado em película Kodak. Acresce, no que nos é pertinente enquanto entusiastas da fotografia, que a procura de rolos 135 e 120 não pára de crescer.

O que, podendo parecer estranho às multidões embotadas pelo marketing, não deixa de fazer sentido: muitos intuem algo de falso neste progresso e nesta compulsão de comprar sem nexo e sentem que estão a ser desviadas do essencial. A qualidade do som só piorou com o digital e não é por uma câmara ser capaz de fotografar com uma sensibilidade de 1638400 que vão fazer melhores fotografias. Acresce que este consumismo tem por consequência necessária a obsolescência rápida dos aparelhos: o que é novidade hoje estará completamente ultrapassado dentro de dois ou três anos. Há quem sinta esta evolução como inautêntica e desnecessária. Isto nada tem que ver com revivalismos retro, nem é demonstrativo de incapacidade de viver o presente: o renascimento do vinil e da película tem os jovens como força motriz. Mas tentem explicar isto à mulherzinha que está a tirar fotografias a uma paisagem requentada com um tablet(continua)

M. V. M.

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