A grande chafurdice

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Ontem entretive-me a ler uma publicação de Rui Palha no facebook em que ele se queixava, no essencial, de que um sujeito – que, a julgar pelo nome, é de nacionalidade turca – usou uma fotografia sua (dele, de Rui Palha) e a publicou no Instagram fazendo-a passar como sendo dele (isto é, do turco). O que Rui Palha não sabe é que já vi outras fotografias dele a ser usadas por outros frequentadores do facebook sem qualquer menção ao autor, o que, sendo menos grave que a usurpação, é também ofensivo. Tenho a certeza que o usurpador retirou a fotografia do facebook, onde R. P. publica insistentemente as suas melhores fotografias. O que é uma insensatez, como veremos adiante.

Um pouco sobre Rui Palha, que também é aplicável a Vítor Tripologos e a outros fotógrafos nacionais e estrangeiros que são fenómenos de popularidade nas «redes sociais». Quando me interessei seriamente por fotografia, o Rui Palha era uma das minhas referências. Gostava da sua estética low key e dos cenários que escolhia; considerava que Rui Palha estava entre os grandes fotógrafos dos nossos tempos.

Depois veio o meu conhecimento da obra de grandes fotógrafos: W. Eugene Smith, Lucien Clergue, Margaret Bourke-White, Kishin Shinoyama, Ray K. Metzker, Lewis Baltz, Chargesheimer, Mary Ellen Mark – a minha adorada Mary Ellen Mark, uma das mulheres mais maravilhosas que agraciou o planeta Terra com a sua presença – e, de súbito, Rui Palha e os outros fotógrafos das redes sociais deixaram de ser importantes. Comecei a olhar as fotografias de Rui Palha usando os fotógrafos citados – e aqueles que conhecia previamente, como Cartier-Bresson e Doisneau – como bitola e percebi que a fotografia dele tem muita estética, mas pouca substância. É certo que, ao medir as fotografias de Rui Palha pela dos mestres que referi, elevei enormemente o patamar de exigência, mas Rui Palha não logra atingir tal nível nem ficar muito perto. As suas fotografias variam entre o bom e o excelente, mas o seu valor reside apenas na estética. Não há mal nenhum nisto, evidentemente, mas Rui Palha não transmite nenhuma mensagem, nada que nos fale sobre a vida como as fotografias de Mary Ellen Mark, Adriana Lestido ou W. Eugene Smith.

Rui Palha é, evidentemente, um fotógrafo de grande valor. Contudo, tem mais aduladores do que verdadeiros apreciadores. Tal é consequência da sua compulsão de publicar fotografias no facebook. Há gente que gosta (no sentido vazio que este verbo adquire no facebook) das fotografias de Rui Palha porque são de Rui Palha. O mesmo acontece com o Vítor Tripologos, que adquiriu a capacidade de publicar a fotografia mais banal do planeta e mesmo assim ter centenas de pessoas a declarar publicamente que gosta dela, ou com Alfredo Cunha, que, pela sua dimensão e reputação, devia saber proteger a integridade da sua obra fotográfica. Ora, os utilizadores do facebook gostam dessas fotografias porque adulam o fotógrafo, não por serem apreciadoras de fotografia; qualquer coisa que os adulados publiquem tem desde logo garantidas centenas de polegarzinhos azuis apontando para cima. Se Rui Palha, Vítor Tripologos ou Alfredo Cunha publicam uma fotografia, os aduladores gostam acrítica e automaticamente. Lamento, mas eu não sou assim. Há fotografias de Cartier-Bresson, Chargesheimer e Doisneau que considero deploráveis, pelo que não vejo por que havia de gostar de uma fotografia medíocre só porque é de um determinado fotógrafo, e logo um menor que esses que citei. Quando vejo grandes fotografias de R. P., A. C. e V. T., porém, admiro-as; algumas deixam-me com a frustrante sensação de que nada do que fiz ou farei se pode sequer comparar a elas.

O reconhecimento instantâneo que o facebook assegura pode ser muito útil a alguns que se contentam com a apreciação fátua que o caracteriza, mas no meu entender Rui Palha (tal como Alfredo Cunha, evidentemente) não precisa de nada disto. A sua presença no facebook apenas o diminui aos olhos dos verdadeiros apreciadores, mesmo que ele tenha a noção oposta. Além do demérito que lhe traz ao banalizar a sua obra, a insistência insensata de Rui Palha em publicar fotografias no facebook expõe-no à usurpação. Não sei se Rui Palha se apercebeu da existência da expressão «partilha» entre os propósitos do facebook, mas se o fez não tem motivos para se queixar. O facebook é mesmo aquilo: um conceito de partilha que faz com que tudo o que publicamos se torne também dos outros. Que importa, a quem o frequenta, a autoria, o direito moral, o tempo e esforço que cada fotografia exigiu? O que lá cai é de todos e pode ser usado livremente. O facebook não providencia qualquer defesa dos direitos dos autores. Qualquer um pode descarregar uma fotografia e fazê-la passar por sua.

Outra insensatez de Rui Palha é confiar na marca d’água, como se esta desse alguma garantia que os direitos do fotógrafo não são violados. É evidente que não dá. Há software que permite a sua remoção e, quando tal não resulta, há ainda o recorte, ou clonar por cima. A marca d’água não atribui qualquer protecção à fotografia, salvo a que resulta de ser legalmente necessário que o nome do autor conste da fotografia para que o direito autoral seja reconhecido. Além da multidão de imbecis bem intencionados que povoa o facebook e usa fotografias de outrem para ilustrar o que publica, há muitos que não hesitam em imitar e mesmo em fazer passar fotografias de outras pessoas por suas. E por que não haviam de fazê-lo? A ocasião faz o ladrão, como diz a sabedoria popular. Está publicado no facebook, logo é de todos!

Rui Palha é dez anos mais velho que eu e tem um acervo considerável de experiência; já tem idade suficiente para saber que todas as acções têm consequências. Devia saber que as coisas no facebook são mesmo assim e que publicar lá fotografias é como atirar comida para uma gamela: mais tarde ou mais cedo há-de haver um suíno a ir lá chafurdar. Porque o facebook é isto mesmo: uma grande chafurdice. Uma chafurdice universal. Não sinto, deste modo, nenhum sentimento particular de revolta ou solidariedade por terem usurpado uma fotografia de Rui Palha: ele pôs-se a jeito.

M. V. M.

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1 thought on “A grande chafurdice”

  1. Sr. Macedo concordo consigo no que respeita à falta de respeito dos direitos de autor no que respeita a qualquer tipo de imagem. Acho mesmo que o problema é mais fundo. Passando pelas plataformas que divulgam de modo livre imagens. Não conheço o trabalho do Sr. Rui Palha mas pêlo texto que escreveu depreendo que limite o uso das suas fotos com o uso de marca d’ água. Acho interessante o ponto de vista que expõe, no entanto também considero que passa por uma nova mentalidade de como a imagem possa e deva ser exposta e ou divulgada. Provavelmente a ideia que a imagem é gerada por uma só pessoa pertence a uma época que já passou. A informação sobre o que é uma boa imagem é igualmente escassa. E muitos que tiram fotos não querem necessariamente saber de técnicas ou de teorias de analise de imagem.
    Estamos na época da socialização onde o volume da divulgação é mais importante que o conteúdo a ser divulgado.E apesar do mundo ser pequeno é grande quando se trata de “roubar” imagens. ou outra coisa que seja. (ideias, som….) Eu sou uma pessoa que gosto de soluções. Não dificuldades que impeçam o percurso. Acho que a solução reside como divulgar (pois é algo não controlável a divulgação e é certa) garantindo que o resultado dessa divulgação vem mais tarde ou mais cedo ter com o seu criador. Foi no domínio do branding que arranjei algumas respostas para este dilema. Por fim on-line é muito semelhante com off-line, com o tempo começa-se a perceber quem é quem.E a lei acção reacção coloca-se me marcha. Quem rouba nunca vai ter nada seu, quem cria é sempre quem desbrava terrenos onde ninguém pôs os pés. Faz aprendendo com os erros e sucessos. Essa honra pertence aos ousados e o tempo mostra quem é quem.
    Finalmente aproveito o momento para felicitar pelo o seu blog. é dos poucos que leio e gosto. E como é 1 de Janeiro, Feliz 2016

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