Mais psicologia da rua

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Não sei quantas vezes escrevi acerca deste tópico. Mais que muitas, certamente, mas há sempre motivos para lá voltar. É sobre a reacção de algumas pessoas quando me vêem a fotografar – e estou certo que muitos já terão passado pelo mesmo que eu.

Muito do que escrevi recentemente sobre este assunto foi altamente apologético do direito das pessoas à imagem e a, simplesmente, serem deixadas em paz. Têm esse direito e defendê-lo-ei sempre que seja razoável fazê-lo, mas há pessoas néscias e mal intencionadas que podem transformar-se num aborrecimento. Já relatei aqui alguns casos, mas como a estupidez de algumas pessoas parece ser inesgotável, continuaram a acontecer-me alguns aborrecimentos. Já fui incomodado por gente que me abordou com uma agressividade absolutamente desnecessária, como se estivesse a tentar assaltá-las, ou a fazer algo de profundamente malévolo. Por vezes foi difícil manter a calma perante essas interpelações absurdas.

Eu não compreendo qual é a dificuldade em assimilar o conceito de que se perde parte dos direitos à imagem quando se frequentam lugares públicos. Isto é algo de tão evidente que me custa aceitar que haja quem não o compreenda. Com efeito, que estúpida ilusão que é essa de alguém querer manter-se invisível quando anda nas ruas e em outros espaços partilhados por todos? Quando andamos na rua somos vistos por olhares bem mais indiscretos que os das máquinas fotográficas; em muitos lugares somos filmados, de nada importando se nisso consentimos ou não, e as pessoas conformam-se com essa vigilância – mas, diante de uma máquina fotográfica, reagem como se estivessem a ser violadas.

Talvez o problema seja eu, com o tempo que demoro a preparar uma fotografia e uma câmara que, aparentemente, intimida mais que uma DSLR profissional. Talvez devesse aderir à iPhonografia, porque já ouvi comentários parecidos com isto: «ah, e tal, se chegasse aqui e tirasse fotografias com um telemóvel era uma coisa; com essa máquina, é outra». Sim, com certeza – porque o que se obtém, quando se fotografa com um telemóvel, não é uma fotografia, nem inclui as mesmas coisas no enquadramento… este argumento é de uma parvoíce que me revolve as entranhas.

Este último argumento, contudo, não deixa de ser interessante – e há alguma racionalidade nele, apesar da sua inanidade intrínseca. É como se as pessoas estabelecessem uma espécie de presunção de seriedade: quem fotografa com um telemóvel não tem um propósito sério, mas quem tem uma câmara fotografa com intenções que vão para além de ter uma mera imagem fugidia de um momento e um lugar qualquer. O pior é que, se isto é essencialmente verdade, há quem deduza que os que fotografam com máquinas fotográficas têm intenções maléficas.

Como eu não tenho outra intenção que não seja fazer fotografias interessantes (o que nem sempre consigo concretizar), torna-se-me difícil compreender por que algumas pessoas vêem propósitos malévolos quando fotografo. Eu não pretendo, em regra, fotografar as próprias pessoas: se quiser fazê-lo, peço-lhes. As pessoas, na maior parte das minhas fotografias, são meros figurantes. É evidente que essas pessoas não o sabem, mas eu não posso abordar todos os transeuntes de uma rua. Nem sou obrigado a fazê-lo. É também certo que poucos conhecem as regras relativas ao direito à imagem, mas muitas das reacções adversas com que me confronto provêm de medos ridículos. Pensarão essas pessoas que sou alguma espécie de paparazzo, ou que pretendo (por exemplo) chantageá-las com as fotografias? É difícil entender o que vai em certas mentes.

Eu podia ultrapassar todas estas complicações por várias maneiras: podia deixar de fotografar, ou podia escolher outro tipo de motivos. Podia, ainda, converter-me à fotografia celular, aquela que é feita com telemóveis – mas, se escolhesse alguma destas opções, estaria a comprometer a minha integridade criativa. Estaria, de igual modo, a aceitar ser condicionado por gente estúpida e intolerante e pelos seus medos absurdos.

Eu tenho tanto direito a fotografar como essas pessoas a andar em lugares públicos. Se há quem não entenda isto, mas vale que se refugiem em casa e não saiam à rua, porque quem pode ser visto pode ser fotografado (e filmado). É evidente que, se pretender fotografar uma pessoa – i. e. se quiser que ela seja o motivo da fotografia –, peço-lhe e conformo-me com uma eventual recusa, porque a pessoa tem esse direito, mas não é a esses casos que me refiro. Longe de mim ter a arrogância de pretender retratar pessoas contra a sua vontade. Mas ninguém me pode recusar o direito de fotografar em espaços públicos.

M. V. M.

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