O tirano malvado e o artista de rua

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Eis o Número f/ de volta a uma das obsessões predilectas do seu autor: a medição da exposição. Desta vez com um caso prático (e uma fotografia) para sustentar as suas teses, as quais serão explanadas recorrendo à figura satírica do tirano malvado (outra das manias do M. V. M.).

Antes de prosseguir, porém, uma pequena recapitulação para os que não são seguidores do blogue e se deparam com esta terminologia aparentemente despropositada: o «tirano malvado» é o fotómetro da câmara. Como todos sabem (ou deviam saber) o fotómetro mede a luz reflectida pelos objectos para determinar a exposição correcta. Na maior parte dos casos funciona bem, mas noutros não. É o que acontece quando queremos fotografar objectos pretos ou brancos: o fotómetro está calibrado na presunção de que os objectos reflectem cerca de 18% da luz incidente, mas os pretos absorvem muito mais e os brancos reflectem uma porção de luz muito superior a essa percentagem. Confiar no fotómetro em casos como estes significa que o Labrador negro vai ficar cinzento e que a neve vai ficar também ela cinzenta. O que tem o potencial de arruinar por completo as fotografias. É esta a razão por que me refiro ao fotómetro como um tirano que conspira na escuridão da câmara para levar o fotógrafo amador à infelicidade e desespero. Com efeito, aquele véu negro que tanto fascinou quem confiou na medição imposta pelo fotómetro vai aparecer, afinal, num tom de cinzento; e o vestido de noiva, em lugar de imaculadamente branco, surgirá tingido de cinza.

Há, felizmente, uma maneira de contrariar estes desígnios pérfidos do fotómetro. Já me referi a ela amiúde aqui no Número f/, mas o que me leva a escrever outra vez sobre este tema é as conclusões a que cheguei depois de ter fotografado, num destes Domingos, um artista de rua pintando graffiti. O tom dominante da parede era o preto, pelo que me preocupei com que as fotografias descrevessem esse tom correctamente. Como eu já conheço as manhas do tirano malvado e pertenço a uma organização de luta armada revolucionária que se propõe combatê-lo – yo soy El Che de la fotografía –, sabia o que fazer: havia que subexpor. Eu sei que isto parece, à primeira vista, pouco intuitivo, mas é mesmo assim que se faz: depois de obter a medição, subexpõe-se (e faz-se o inverso com os tons claros, desde logo com os brancos). É que o tirano, na sua sanha furibunda de destruição do nosso prazer fotográfico, vai tentar transformar o preto num cinzento a 20%. E não vos preocupeis pensando que, procedendo desta maneira, o preto pode ficar bem mas o resto vai ficar subexposto: não vai. Desde que se tenha o cuidado de se medir a exposição na área preta – o que é importante para obrter um tom fiel ao real –, o uso da compensação de exposição fará com que o resto da imagem, que de outro modo apareceria estourado porque o fotómetro indicaria um tempo de exposição longo, fique bem exposto, pelo que não há motivos para preocupações. Quanto aos brancos, o raciocínio é o inverso.

Nas três fotografias que fiz do artista de graffiti, usei uma subexposição de cerca de -1 EV. Quando vi as digitalizações – e aqui segue a novidade que justifica o presente texto – notei que não tinha ficado com um preto retinto, mas com um cinza a 10% (o que é melhor do que o que teria obtido se tivesse confiado no fotómetro). Isto significa que há casos em que não basta uma ligeira compensação para restituir o tom normal à imagem e que, ao subexpor em -1 EV, fui demasiado tímido ou optimista.

Aqui vai, pois, o ensinamento do dia: os negros retintos e os brancos precisam de muito mais que uma compensação de exposição ligeira. Quanto mais estes tons se aproximam do preto e do branco absolutos, maior terá de ser a subexposição ou sobreexposição. Nestes casos extremos, não há que hesitar: o preto requer uma subexposição de -2 EV e o branco exige uma sobreexposição de +2 EV. 

É evidente que se pode opor que estes problemas podem ser corrigidos no computador, com recurso ao programa de edição de imagem, mas tal atitude implica reconhecer a vitória do tirano malvado e a aceitação da nossa submissão aos seus desígnios perversos. Uma fotografia bem exposta requererá menos trabalho de edição de imagem – o que é sempre bom – e importa ter em conta que a edição não é uma solução milagrosa e pode não ser capaz de reparar a destruição causada pelas medições enganosas do fotómetro.

Deste modo, o melhor é mesmo compensar a exposição. Isto faz-se usando o comando de compensação da exposição, quando se usam os modos de exposição semiautomáticos da câmara, ou alterando a exposição diminuindo ou aumentado a abertura ou o tempo de exposição quando se fotografa no modo manual. Só assim conseguirão desfeitear o tirano malvado que conjura na escuridão para sabotar as vossas fotografias.

M. V. M.

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