Pequenas alegrias, grandes fracassos

Esta está a ser uma semana horrível. No dia 16, recebi finalmente o e-mail da EPSO (European Personnel Selection Office) com os resultados dos testes que fiz em Bruxelas, na sequência da minha candidatura a um cargo de jurista-linguista do Parlamento Europeu e do Conselho. Não fui aprovado. Curiosamente, as provas que me pareceram ter corrido melhor foram aquelas em que tive piores resultados. Isto deixou-me com um estado de espírito sinistro. Depois de ter estado quatro dias em Bruxelas, cidade que me deixou maravilhado, e de toda a preparação que empreendi, senti-me no direito de alimentar boas expectativas quanto ao meu futuro, mas aquele e-mail abriu um abismo debaixo dos meus pés. Nem o facto de a candidatura ser, afinal, para integrar uma lista de reserva – e não para preencher imediatamente um cargo – me serve de consolo, porque falhei. Falhar depois de tanto esforço dói – mesmo que, no fundo, estivesse preparado para esta notícia. Ficou-me a sensação amarga da derrota, o que nunca é agradável e abre uma ferida que demora muito a sarar.

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Como se este fim abrupto de um sonho não fosse suficiente, ontem descobri outro facto que me deixou perturbado: a Coimbra Editora foi declarada insolvente. Por que me afectou esta notícia? Eu escrevi dois livros de direito, que foram ambos publicados por aquela casa quase centenária. Isto deixou-me cheio de orgulho, mas a publicação dos meus livros correspondeu, afinal, a uma estratégia desesperada da Coimbra Editora que consistia em publicar todo e qualquer escrito jurídico que tivesse mais de dez páginas, de maneira a colocar no mercado tantas obras quantas possíveis, procurando deste modo obter alguns lucros – sem pagar aos autores. Eu fui apenas mais uma vítima desta estratégia. Depois de ter recebido alguns direitos relativos ao primeiro livro, só voltei a ter notícias da Coimbra Editora três anos mais tarde, quando a editora havia sido adquirida pela multinacional holandesa Wolters Kluwer, que procurou repor a boa reputação da marca Coimbra Editora, mas aquele grupo editorial alienou posteriormente a sua participação aos antigos accionistas. Entre eles estava um vigarista que, como veio a saber-se, reteve verbas da Coimbra Editora em proveito próprio e é arguido no inquérito dos «vistos gold». Este escroque deixou de atender os meus telefonemas e de responder aos meus e-mails, nos quais o confrontava com a falta de prestação de contas e de pagamento de direitos; embora na altura suspeitasse que algo estava a correr mal com a Coimbra Editora, estava longe de imaginar que os seus problemas tinham origem na desonestidade. É chocante que uma editora com este prestígio saia enxovalhada desta maneira e corra o risco de desaparecer.

Deixando as lamúrias de lado, esta semana aconteceram duas coisas interessantes no reino da fotografia – no meu pequeno reino da fotografia, quero eu dizer. A primeira foi ter recebido um pequeno brinde natalício que, como vim a descobrir quando cheguei a casa e o desembrulhei, era um rolo Ilford Pan 400. Vai ser a minha primeira experiência com película expirada, já que este rolo era para consumir de preferência antes de Outubro de 2000. Ou seja, um rolo que já tem idade para namorar. O facto de ter uma objecção de princípio contra os rolos expirados não vai impedir-me de usá-lo. Depois eu relato-vos a experiência, mas pelo que vi na internet é uma película tipicamente Ilford, i. e. com muito bom contraste e a nitidez habitual, e com um grão subtil.

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Foto: David Turnley

Muito mais importante foi ter descoberto, nesta semana, a obra de outro grande fotógrafo: David Turnley. David é o irmão gémeo de Peter Turnley, um dos mais importantes fotógrafos «de rua», mas David, além de ter uma obra mais vasta, é muito melhor fotógrafo do que Peter alguma vez será. Esta apreciação seria pejorativa, se não se desse o caso de estar a referir-me a dois fotógrafos de qualidade verdadeiramente estratosférica. Curiosamente, Peter Turnley é mais conhecido nos meios amadores do que David – talvez por ter uma ligação muito forte com a fotografia de rua, estilo do agrado de muitos amadores –, o que é profundamente injusto. Não estou a dizer, de maneira nenhuma, que Peter Turnley é um fotógrafo menor: as suas fotografias, especialmente as de Paris, são maravilhosas. É que David está noutra dimensão. É um fotógrafo que está no mesmo nível que Alfred Eisenstaedt ou Margaret Bourke-White; é um daqueles de quem a história da fotografia um dia falará com reverência.

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Mohammed Ali por David Turnley

Infelizmente, eu sou um pessimista. Descobrir a obra de David Turnley não mitiga a minha frustração pelos fracassos que relatei no início, mas aprendi com os Monty Python que devo always look on the bright side of life (segue-se um assobio).

M. V. M.

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