O paradoxo do efémero


A fotografia tornou-se um fenómeno de massas. Onde quer que se vá, há certamente alguém, mesmo no mais recôndito e improvável dos lugares, a tirar selfies ou fotografias de tudo o que se possa imaginar. Se formos a lugares considerados de interesse turístico, são multidões incontáveis a fazê-lo. O fenómeno é de tal ordem que, por vezes, me envergonho de passar nesses lugares com a máquina na mão: sinto que não quero ser confundido com aqueles magotes de gente, que não quero que pensem que estou a fazer o mesmo.

No Sábado à noite resolvi fazer fotografia nocturna. Há já vários meses que não saía à noite. Tentar chegar à Baixa e estacionar foi um suplício. No meio dos engarrafamentos, foi obnóxio ver tanta gente a fotografar a árvore de Natal que a Câmara Municipal resolveu instalar na Praça do General Humberto Delgado: os flashes insistentes não paravam de disparar, a multidão de gente fazia lembrar um comício, o trânsito era uma montra da azelhice dos condutores. Cheguei a pensar em desistir e voltar a casa: só não o fiz porque não queria arrepender-me do tempo que desperdicei.

Muitos poderão considerar normal que, com as pessoas munidas de meios fáceis para fotografar, o façam com esta insistência, mas eu pergunto-me para que o fazem. Hoje as pessoas fotografam tudo e mostram o que acabaram de fotografar na internet. Como esta última tem ela mesma uma natureza efémera e volátil, as fotografias são esquecidas ao fim de alguns segundos. A fotografia, que tradicionalmente era o meio de fixar momentos efémeros para os recordar, tornou-se ela mesma efémera. Este é um paradoxo irresolúvel.

Este fotografar tudo sem nexo é inexplicável: as pessoas preferem fotografar a ver e as fotografias que tiram servem apenas o propósito de mostrar aos outros que se esteve ali naquele momento. Às vezes nem isso: são perfeitamente fúteis e estúpidas, como acontece com as selfies. A fotografia digital trouxe com ela a ilusão de que todos sabem, podem e devem fotografar. Quanto mais penso nisto, mais me convenço que a fotografia digital matou a fotografia. Não apenas, note-se bem, a chamada fotografia analógica, a feita com película, mas toda a fotografia.

Com efeito, se a fotografia serviu sempre para fixar momentos efémeros, de que serve se é também ela efémera? Esta compulsão de ilustrar com imagens todos os momentos das vidas de cada um destitui a fotografia de sentido. Não é útil, porque deixou de servir a memória; não é artística, porque não é feita com essa intenção; e não é significativa, porque os momentos que descreve também não o são. É um nada. Esta forma de fotografar a que todos se entregam vorazmente com os seus telemóveis é um vazio completo. Quando muito, serve um propósito de recreação – e não há nada de malévolo ou perverso nisto –, mas é uma recreação instantânea, volátil e vazia.

Quando as fotografias tinham um significado útil, as pessoas guardavam-nas em papel. Serviam-lhes para recordar o passado, para reviver os bons momentos que tinham vivido. Hoje as fotografias destinam-se a ilustrar tudo o que elas fazem, convencidas que os outros estão profundamente preocupados com elas e que têm um desejo premente de saber onde estiveram, o que comeram ao almoço e como era o bolo de aniversário da prima mais nova. Decerto, as pessoas fotografam assim porque podem e porque têm os meios para tanto, mas para que o fazem? Não é decerto para recordar, porque aqueles com quem as fotografias são partilhadas vêem-nas e esquecem-nas de imediato. Estas fotografias não são para recordar nada: daqui a um mês terão sido apagadas da memória do telemóvel. As que foram para o facebook serão rapidamente esquecidas porque não tinham nada de importante para mostrar.

A consequência disto é que podemos ter gerações futuras sem memória. Nada restará do tempo que viveram: os momentos vividos subsistirão apenas na memória até desaparecerem – o que se tornará fácil, porque o recurso incessante à fotografia destreinou os seus cérebros da função de guardar recordações. Nenhum lugar ou acontecimento estará documentado, porque a fotografia se tornou tão efémera como os momentos que se viveram. O nosso tempo é feito de paradoxos, e este de a fotografia se ter tornado efémera é apenas mais um – mas é inteiramente coerente com a voragem do consumo e dos gadgets.

M. V. M.

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3 thoughts on “O paradoxo do efémero”

  1. Grata pela sua partilha com que me identifico na totalidade !

    No passado sábado, aconteceu em Évora uma actividade de MONTRAS VIVAS;
    sendo as montras um dos temas que gosto de fotografar, decidi investir e fazer uma ronda pelas lojas participantes.

    Estava em plena captura quando fui abordada por um dos lojistas que achou por bem vir ‘aconselhar-me’.
    ‘Encoste a objectiva ao vidro ! É assim que está toda a gente a fazer para eliminar os reflexos…’

    Lá tentei com alguma assertividade explicar-lhe que os reflexos são parte da composição que não quero perder e que é esse o modo como habitualmente fotografo montras… pela expressão que me devolveu, senti que não o convenci e que para ele sou apenas alguém que nem sabe como fotografar montras.

  2. faz-me lembrar um frase de Ernst Haas:
    “Living in a time of the increasing struggle of the mechanization of man, photography has become another example of this paradoxical problem of how to humanize, how to overcome a machine on which we are thoroughly dependent… the camera…”

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