Imagiologia digital

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O debate entre a fotografia analógica e a digital parece nunca ir acabar. Por vezes é de tal maneira acirrado que os partisanos de um ou outro lado se embrenham em batalhas verbais que não levam a lado nenhum.

Do meu lado, que é o da fotografia analógica, parece-me que os adeptos da fotografia digital são os mais acérrimos na defesa das suas posições. Infelizmente, porém, todos os argumentos que têm a apresentar são de natureza técnica, não contando para muito porque, do outro lado, os argumentos opostos são de uma ordem completamente diferente e se relacionam com o prazer do acto de fotografar (e de revelar, o que por vezes tendo a esquecer porque não o faço, mas é importante).

Na verdade, fotografar com uma câmara digital não é bem o mesmo que fotografar com película. Nesta última há um registo da luz reflectida pelos objectos num substrato que se modifica quimicamente quando exposto; na fotografia digital há uma conversão da luz que é registada numa placa de silicone em linguagem binária. A câmara não é uma máquina fotográfica, mas um pequeno computador equipado com uma lente.

Isto, posto assim, é de tal maneira prosaico que só por si tem o potencial de roubar todo o prazer ao acto de fotografar no domínio digital, mas há mesmo quem entenda que usar uma câmara digital não é fotografar: é fazer imagens digitais. A expressão «fotografia» deveria, deste modo, ser reservada à fotografia analógica, utilizando-se, para o domínio digital, a expressão «imagiologia digital».

Que penso eu disto? O proponente, que é nem mais nem menos que o blogger Mike Johnston, não deixa de ter razão. O escrever com luz que caracteriza a fotografia não tem lugar no domínio digital. Aqui a luz é, prosaicamente, um conjunto de comprimentos de onda que, depois de captado, vai ser mapeado e convertido em algarismos 0 e 1. O que não tem poesia nem mistério nenhum, mas sobretudo não tem um nexo físico com o fotógrafo como tem a película.

Mas será uma fotografia menos, digamos assim, fotografia, por ser uma imagem feita com recurso a meios digitais? Sim e não. Não, porque etimologicamente não se está a escrever com luz, mas a mapear a luz para transformá-la numa imagem. Mike Johnston, no seu texto, providencia alguns exemplos de terminologias referentes a meios caídos em desuso que foram transpostas para as tecnologias actuais, como o cavalo-vapor para medir a potência do motor de um automóvel. Neste caso, usa-se esta expressão por comodidade, à falta de melhor, porque na verdade não tem nada que ver com a realidade actual. Os automóveis não são puxados por cavalos nem funcionam a vapor. Mas esta é uma questão meramente semântica; de resto, usar a expressão «imagiologia digital» faz mais sentido quando estamos a fazer uma ressonância magnética ou um raio X que quando estamos a fotografar – ou, se preferirmos, a fazer imagens digitais.

Feito este esclarecimento, penso que uma imagem digital tem o mesmíssimo valor que uma fotografia analógica. Quanto ao conteúdo, pelo menos. Eu tenho uma relação muito especial com a fotografia analógica: troco os seus inconvenientes pelo prazer que me dá – um prazer que não consigo imitar quando uso uma câmara digital. O que não significa que seja incapaz de reconhecer os progressos feitos pela imagiologia digital: ver uma fotografia de há dez anos e ver uma de hoje torna patente a evolução que se verificou. Isto é inegável, mas subsiste sempre o facto de que não é um verdadeiro processo de fixação de luz. Fazer imagens digitais não é escrever com luz.

Curiosamente, a fotografia analógica cravou uma lança no esterno do domínio digital sem que ninguém disso se tenha apercebido. Conhecem a imagem do ambiente de trabalho do Windows XP? Aquela da colina coberta de relva verdíssima, com um céu muito azul como fundo? Pois bem: essa fotografia chama-se Bliss, é de Charles O’Rear e foi feita com uma Mamiya RZ67 usando um rolo de película Fujifilm Velvia. Irónico, não é?

M. V. M.

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