Notas dominicais

1. Ultimamente tenho feito fotografias bastante diferentes das que costumo fazer. Tenho procurado fazer fotografias que remetam para o mundo interior e que digam algo sobre a minha maneira de ser e de ver as coisas. Eu não fotografo para mostrar objectos tal como eles são, nem para produzir imagens óbvias: fotografo para transmitir a impressão que eles me causam. Na minha concepção de fotografia não pode haver lugar para a banalidade e o óbvio. Ou pelo menos não quero que haja lugar para eles. Eu fotografo para exprimir-me, não para ter muitos likes ou para ser reconhecido.

Uma das consequências práticas desta minha resolução é o declínio da importância da técnica nas minhas fotografias. Não estou interessado em fazer fotografias que apenas sirvam para mostrar que domino a técnica e que, por essa via, sou um grande «fotógrafo». A técnica que aprendi é a necessária e conveniente à minha forma de expressão. Está presente se – e quando – precisar dela, mas não a ostento nas minhas fotografias. A técnica é – penso que já escrevi isto antes – para aprender e esquecer. Quando precisarmos dela, ela vem à mente com naturalidade. A técnica só pela técnica pode produzir fotografias bonitas, mas inevitavelmente vazias de qualquer interesse.

Tenho também reparado como é fácil, a quem fotografa, deixar-se influenciar. Uma das consequências de alargar o meu conhecimento da obra de outros fotógrafos é dar por mim a, conscientemente, querer fazer como eles. O processo mental é mais ou menos o seguinte: vejo uma determinada cena e comparo-a imediatamente a algo que alguém – geralmente, mas não necessariamente, um dos grandes fotógrafos – fez antes. E fotografo na mesma, em lugar de me deter por não estar a ser original. E chamo a isso «influência», quando na verdade é imitação.

Acabou. Claro que é impossível abstrair de todas as fotografias que vi até hoje, mas vou tentar. É a única maneira de conseguir fazer fotografias que nunca ninguém tenha feito antes de mim – e mesmo assim este objectivo pode ser impossível de prosseguir. Esta minha resolução de fazer fotografias mais interiores (por assim dizer) não terá sido influenciada pelo conhecimento da obra de outros fotógrafos, como Ralph Gibson ou o nosso Daniel Blaufuks?

A verdade é que é difícil escapar às influências. Pergunto-me mesmo se será de todo possível evitar que elas influam no processo criativo. Mesmo nas fotografias dos melhores entre os melhores é possível ver influências. Talvez este seja um esforço vão, mas penso que vale a pena segui-lo – não por querer ser um mestre da fotografia, mas pelo simples propósito de fazer fotografias que sejam fiéis à minha maneira de ver as coisas. A minha, repito. Porque não há duas pessoas que vejam as coisas da mesma maneira – e, se é assim, porque há-de alguém fotografar da mesma maneira que outra pessoa?

2. Um dia destes ainda vou concretizar uma ideia que tem vindo a germinar no meu cérebro desde há alguns meses: expor um rolo só com fotografias que me deixem inteiramente satisfeito. Trinta e seis fotografias inteiramente pensadas e intencionais. Eu falho muitas fotografias, as mais das vezes por errar completamente na apreciação do valor fotográfico de um objecto ou cena. Pois bem: quando fizer esta experiência vou tentar ser selectivo e pensar melhor antes de disparar. Mesmo com a consequência necessária de demorar muito mais que o habitual a expor um rolo de trinta e seis fotogramas.

3. Esta minha procura de uma forma diferente de fotografar tem-me feito andar muito atento quando procuro motivos nas ruas. Ontem e hoje reparei em algo que me deixou chocado: o número de pessoas que vasculham caixotes e contentores de lixo. Hoje, por exemplo, numa caminhada relativamente curta entre as Ruas 15 de Novembro e Pedro Hispano, vi três pessoas a fazê-lo. O mais perturbador foi que essas pessoas não eram exactamente vagabundos: estavam decentemente vestidas e cuidadas e, o que me chocou ainda mais, eram pessoas com idades à volta dos 70 anos.

Isto acontece em Portugal, no país dos cofres cheios e da retoma económica, mentiras com que os governantes que esta semana que passou deixaram de sê-lo tentam ainda agora enganar-nos. Quando os partidos da esquerda falaram (e decerto continuarão a fazê-lo) da «política de empobrecimento» que a coligação agora deposta levou a cabo, não era apenas um slogan propagandístico: nos últimos quatro anos o país ficou pobre, desesperadamente pobre. Oxalá agora existam condições para devolver a dignidade aos portugueses que sofreram com as políticas da direita.

M. V. M.

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