O sequestro

https://artblart.files.wordpress.com/2013/03/don-mccullin-catholic-youth-escaping-a-cs-gas-assault-web.jpg?w=655&h=442

The trouble with photography is that it’s been hijacked by the art world. I’m a photographer. I’m very happy with the title. I’m not an artist.

Traduzindo: «o problema da fotografia é que foi sequestrada pelo mundo das artes. Eu sou um fotógrafo. Estou muito satisfeito com este qualificativo. Não sou um artista».

A frase é de Don McCullin, fotojornalista britânico nascido em Finsbury Park no dia 9 de Outubro de 1935. Não sei muito bem que pensar desta citação; em circunstâncias normais, far-me-ia pensar na frivolidade de atribuir à fotografia o estatuto de arte. Se alguém como Don McCullin nega à fotografia a qualificação como arte, por que havia eu de esgrimir uma opinião oposta?

A resposta é simples: a frase de Don McCullin está, aparentemente, em completa contradição com a sua maneira de fotografar. Algumas fotografias (ou fotoreportagens) de McCullin lembram-me o fotógrafo que elevo acima de todos os demais, W. Eugene Smith. Tal como este, também McCullin soube encontrar beleza e harmonia em cenários de horror e violência. As suas fotografias são extremamente cuidadas na composição e é notório que são enformadas por princípios artísticos. Deste modo, o próprio Don McCullin é um artista.

Tentemos, então, compreender por que um artista renega à sua arte o estatuto de arte. Don McCullin é um fotojornalista que assumiu a fotografia como meio de descrever a realidade dos factos. Embora essa realidade tivesse sido descrita por McCullin através de fotografias enformadas por princípios artísticos, muitos fotojornalistas, especialmente depois de Steve McCurry, pareceram mais preocupado com a estética fotográfica do que com a informação que as fotografias devem transmitir. Hoje o que vemos é fotografias que tentam recriar Pietàs e Madonas lacrimosas em cenários de guerra e devastação. O tipo de fotografias que costuma ganhar os prémios da World Press Photo. O conteúdo artístico sobrepõe-se muitas vezes ao conteúdo informativo ou noticioso, introduzindo um elemento de frivolidade que, se bem interpretei a citação, não é do agrado de Don McCullin.

image006
Por Marco Longari

Lembro-me, a este propósito, de ter escrito: «Gostava que os fotojornalistas revertessem para o estilo de fotografia que nos faz repudiar a violência – como as fotos de Kevin Carter, Malcolm Browne ou Eddie Adams – e que denuncia os horrores que se cometem, venham eles de que lado vierem. Porque, a despeito da cada vez maior irrelevância do valor da vida humana, numa guerra perdem-se vidas, e da maneira mais brutal possível. A guerra é, em si, obscena – mesmo quando pareça justificada por ideias mais ou menos nobres. A fotografia não devia contribuir para o seu embelezamento nem para a transmissão de uma ideia de inocuidade». Apenas acrescentaria aqui a fotografia de James Nachtwey, capaz de nos causar compaixão e repulsa como poucas.

Porém, nem toda a fotografia se resume ao fotojornalismo. Fora deste âmbito, a fotografia não tem necessariamente de ter um conteúdo informativo. Se McCullin tem alguma razão quando separa a fotografia do domínio das artes no que respeita ao fotojornalismo, já quanto a tudo o que situa fora deste alcance pode ter uma natureza artística.

A arte não sequestrou a fotografia: adoptou-a, acolheu-a. As fotografias pioneiras foram, se virmos bem as coisas, uma forma de exprimir em imagens o que antes só podia ser descrito pela pintura e outras artes visuais. A fotografia acompanhou, embora com algum atraso devido à sua relativa juventude, a evolução das artes plásticas no sentido da abstracção e foi acolhida por artistas plásticos – como, por exemplo, Man Ray – desde cedo.

E não há nada de mal nisto. Se a fotografia se limitasse a descrever a realidade – o que nunca seria possível, porque cada fotografia é um ponto de vista subjectivo acerca do objecto fotografado –, seria profundamente aborrecida e desinteressante.

Mesmo, note-se bem, a fotografia dos fotojornalistas. Não vejo por que não há-de ter um conteúdo estético, desde que – e penso que é a isto que Don McCullin se referiu – a estética não prevaleça sobre a mensagem e nos faça esquecer o facto que está por trás da composição. Porque a missão do fotojornalista é dizer a verdade sobre o que vê. Se essa verdade é cruel e dolorosa, não pode ser ocultada sob um manto de beleza. É decerto por ter consciência disto que o artista que é Don McCullin renega esse título e o troca pelo de fotógrafo.

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s