A beleza das altas luzes

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É provável que já tenha escrito sobre isto aqui no Número f/, mas vou fazê-lo agora just in case. É sobre um elemento da imagem que passou a ser tratado de maneira muito diferente quando se fez a transição da película para o digital: as altas luzes. Essa diferença é muito mais notória na fotografia a preto-e-branco.

A fotografia digital, por os primeiros sensores terem uma gama dinâmica limitada, criou o hábito de expor de uma maneira diferente: enquanto na fotografia analógica a regra era a de expor para as sombras, de maneira a preservar o pormenor nesta zona do espectro luminoso, na fotografia digital a regra é a de expor para as altas luzes, ou expor para a direita, por alusão ao lado direito do histograma.

É evidente que estas regras não são absolutas. Para fazer silhuetas não se expõe para as sombras e nem sempre é desejável, no caso da fotografia digital, suprir a informação presente nas áreas de sombra para preservar as altas luzes. Contudo, esta mudança deveu-se à facilidade com que os sensores estouram as altas luzes, fazendo com que se perca informação nas porções mais claras da imagem. Para evitar esta perda de informação – é relativamente fácil recuperar o pormenor das sombras, mas o que se perde com o estouro das altas luzes é por vezes irreversível –, criou-se o hábito de expor para as partes mais claras da imagem.

Isto é algo que todos já sabíamos, mas este hábito trouxe consigo um outro, que é mais patente quando se convertem ficheiros Raw para preto-e-branco: alguns programas de edição de imagem compensam o excesso de altas luzes por defeito, atenuando-as, mas os fotógrafos tendem a fazer desaparecer as altas luzes por completo. Esta forma de editar as fotografias tem que ver com a maneira muito diferente como o digital reage às altas luzes, as quais são muito mais agressivas para os fotodíodos do sensor que para os sais de prata das emulsões para preto-e-branco.

Acresce que, com a fotografia digital, criou-se uma verdadeira obsessão pela nitidez e pela profusão de pormenores na imagem. Como estes factores são incompatíveis com as altas luzes excessivas porque estas obrigam a expor para elas, perdendo-se pormenor nas sombras, a supressão das altas luzes tornou-se num verdadeiro imperativo da fotografia digital.

A supressão das altas luzes na conversão para preto-e-branco de ficheiros digitais foi algo em que incorri durante demasiado tempo. Abria um ficheiro no programa de edição de imagem e baixava a compensação de exposição até as falsas cores que assinalavam a presença de altas luzes excessivas (excessivas no entender de quem programou o editor, claro) desaparecessem; se não chegasse, movia o slider das altas luzes completamente para a esquerda até não sobrar qualquer vestígio de falsas cores.

O resultado desta prática? Imagens escuras e visualmente pesadas, sem uma discriminação ideal dos médios tons e com pouca informação nas zonas de sombra. Na sua maioria, estas conversões que fiz suprimindo as altas luzes são grosseiras, porque desprovidas de subtileza, e francamente desagradáveis de se ver.

Ficheiro Raw com as altas luzes suprimidas…
…E convertido em escala de cinzas, mantendo as altas luzes

Este desagrado só se tornou manifesto depois de fazer fotografias com o verdadeiro preto-e-branco, que é o da película. As conversões de ficheiros digitais para preto-e-branco são uma pobre tentativa de imitar a fotografia analógica. Nesta última, as altas luzes são proeminentes; e, quando se expõe para as sombras, podem surgir estouradas – mas que importa?

Na fotografia a preto-e-branco, as altas luzes são importantíssimas. São elas que dão vida às fotografias. O efeito das altas luzes é invariavelmente belo: transmitem uma sensação de luminosidade intensa e transbordante e providenciam contraste à imagem. O preto-e-branco vive do contraste e este desaparece quando se suprimem as altas luzes. Suprimi-las é a pior das estultícias: deixa as fotografias desinteressantes, quer por se tornarem demasiado escuras, quer por serem visualmente confusas e planas.

O que se deve fazer, quando se converte ficheiros digitais para preto-e-branco – e deve notar-se que o pior que se pode fazer é fotografar em JPEG com a câmara configurada para preto-e-branco –, é manter as altas luzes tanto quanto possível. Tanto pior se estiverem estouradas: antes uma fotografia com altas luzes estouradas que uma plana e sem vida. Outra recomendação é converter as imagens em escalas de cinzas no Photoshop CS (Image → Mode → Grayscale). Com isto consegue-se uma aproximação verosímil ao verdadeiro preto-e-branco, mas devo advertir-vos que a diferença continuará a notar-se. As conversões são distintamente pechisbeque quando comparadas com o preto-e-branco genuíno.

M. V. M.

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