A arte do retrato: algumas considerações intempestivas

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1. Os retratos que mostrei nos últimos dois dias dificilmente podem ser considerados banais; de facto, duvido que os familiares de Konrad Adenauer e Samuel Beckett os pusessem num passe-partout sobre a mesa de cabeceira – embora, no caso de Samuel Beckett, seja plausível que os pendurassem numa parede bem visível, em grandes ampliações, e os mostrassem aos visitantes com o maior orgulho.

Em oposição, a forma como os amadores fazem retratos hoje não podia ser mais lugar-comum. A fórmula está mais que estafada: procuram-se expressões agradáveis à vista, que lisonjeiem o retratado, usam-se teleobjectivas relativamente curtas – entre 85 e 135 mm – e abusa-se da profundidade de campo para criar o maldito do bokeh. Tudo isto resulta (ou pode resultar) em retratos muito belos, mas – e depois? Estes retratos nada nos dizem sobre a pessoa retratada: apenas transmitem uma impressão superficial sobre os seus atributos estéticos. Estes retratos mostram mais sobre quem os fez do que sobre a pessoa retratada, mas no pior sentido. Vimos que os bons retratos incorporam as concepções dos seus autores sobre o mundo e a vida, mas estes retratos cheios de bokeh apenas mostram a vaidade do fotógrafo amador na sua técnica e no equipamento usado. A pessoa retratada, por ser pouco mais que um pretexto, torna-se irrelevante: esses retratos são um espelho da mediocridade e da falta de imaginação dos seus autores.

Alguns nunca compreenderão que a dificuldade do retrato não está na técnica: está no domínio da expressão. Transmitir ideias através da fotografia é, porventura, a aprendizagem mais difícil quando se quer fotografar com algum sentido. Tudo isto é ainda mais verdade no retrato, que é, sem dúvida, a disciplina mais difícil da fotografia.

2. No decurso das minhas pesquisas, descobri um facto relevante sobre Karl-Heinz Hargesheimer, que se apresentava sob o pseudónimo Chargesheimer: ele tinha por hábito retocar as imagens no laboratório, suprimindo pormenores da imagem. Saber isto fez-me rever atentamente o retrato de Konrad Adenauer: os olhos do chanceler são apenas manchas escuras, o que atribuí a um tempo de revelação muito curto ou a uma ampliação prolongada com o propósito de acentuar o contraste e as sombras.

Na minha mente, porém, tornou-se muito claro que Chargesheimer suprimiu os tons claros dos olhos de Adenauer através do dodging. Não sei o suficiente sobre este fotógrafo, a não ser o que recolhi com a esparsa informação que existe na internet, mas parece-me evidente que ele quis exprimir algo com esta manipulação técnica. É possível que Chargesheimer tivesse entendido que Adenauer era insensível a algo importante e que, por esta via, o fotógrafo lhe tivesse imputado uma cegueira a esse algo. Se for assim – o que estou a escrever cai largamente no domínio da especulação –, o retrato que mostrei é ainda mais brilhante e vai ainda mais longe do que eu inicialmente pensara na expressividade.

Chargesheimer é um fotógrafo que, pela sua importância, merecia ser mais bem conhecido. Muitos confundem notoriedade com importância, mas não é bem assim. Pode ter-se notoriedade e ser-se irrelevante e, em contrapartida, pode ser-se importante sem chegar a adquirir notoriedade. Se importância e notoriedade fossem sinónimos, José Rodrigues dos Santos teria de ser considerado um grande escritor e Luiz Pacheco um escritor menor. Na fotografia, um fotógrafo como Bruce Gilden deveria ser havido como mais importante que Chargesheimer. Simplesmente, a importância mede-se pela extensão com que a obra de um autor fez evoluir a sua arte. É por isto que Luiz Pacheco reduz José Rodrigues dos Santos à dimensão de um grão de poeira e Chargesheimer é infinitamente mais importante que Bruce Gilden.

M. V. M.

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