A arte do retrato (continuação)

No texto anterior mostrei-vos como dois fotógrafos retrataram a mesma pessoa de maneira a exprimir concepções muito diferentes; simplesmente, estes retratos de Konrad Adenauer por Chargesheimer e Will McBride comungam de uma característica: concentram-se exclusivamente no rosto da pessoa retratada. Um transmite as suas concepções através da iluminação e da pose, outro recorre à expressão facial, mas em ambos existe um cenário vazio, fazendo com que toda a atenção se concentre na pessoa retratada, como se só ela fosse importante (embora, no caso de Chargesheimer, exista um jogo subtil de luzes e sombras no plano de fundo cujo sentido não pode ser menosprezado).

Estas não são as únicas maneiras de fazer retratos que escapam ao lugar-comum. Hoje mostro-vos dois retratos da mesma personalidade que são radicalmente antagónicos. Um recorre ao isolamento praticamente total do rosto da pessoa, o outro mostra-o inserido naquilo que o fotógrafo entendia ser um contexto relevante para a pessoa retratada. O retratado é Samuel Beckett, escritor e dramaturgo vanguardista irlandês que se inspirou nas correntes filosóficas do existencialismo e do absurdo e escreveu À Espera de Godot, essa peça em que duas personagens esperam por alguém que não conhecem nem vai comparecer a um encontro que, aliás, nem sequer estava marcado. Os retratos, desta vez, não são de fotógrafos obscuros: são de Jane Bown e de nem mais nem menos que Henri Cartier-Bresson.

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Samuel Beckett por Jane Bown…

Estes exemplos são apenas dois de muitos possíveis. Aliás, o retrato de Jane Bown nem é dos mais exemplificativos do retrato com ausência total de fundo – são visíveis umas tábuas na parede lateral, à direita na imagem, que transmitem (não por acaso) uma sensação de profundidade –, mas o essencial, no retrato de Jane Bown, continua a ser o rosto. Neste retrato foi procurado um contraste tonal extremo, de maneira a salientar cada feição, cada ruga e cada linha do rosto de Samuel Beckett. O resultado é um retrato de uma intensidade tal que, através dele, se adivinha toda a turbação interior de Samuel Beckett (cujo rosto, diga-se, é só por si suficientemente intenso e expressivo). O que Jane Bown nos traz é a autosuficiência do rosto: este é capaz, só por si e sem o auxílio de elementos externos, de descrever a personalidade da pessoa retratada.

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…E por HC-B

A abordagem de Henri Cartier-Bresson não podia ser mais diferente. Pode dizer-se, sem incorrer em intelectualidades desnecessárias, que está enformada de uma concepção ontológica reminiscente de Miguel de Unamuno, que pode sintetizar-se com a frase «eu sou eu mais as minhas circunstâncias». Neste caso, Henri Cartier-Bresson escolheu um plano de fundo no qual situou o rosto de Samuel Beckett, integrando-o deste modo no meio ao qual Cartier-Bresson entendeu que Samuel Beckett pertencia: o dos livros. Alguns vêem, neste retrato, um auto-retrato subtil de Cartier-Bresson, que surge reflectido no candeeiro que se vê à esquerda de Beckett, mas creio que este é um elemento acidental e que o reflexo não é propositado, mas seja como for esta é uma questão cuja resposta só o próprio Henri Cartier-Bresson poderia fornecer.

Este retrato não deixa de ser fascinante pelo contraste que providencia. O fundo é arrumado, organizado e simétrico, contrastando com a pose e, sobretudo, com a expressão de Samuel Beckett. Não sei, ao certo, o que Cartier-Bresson quis exprimir com isto, mas há, no olhar e na pose de Beckett, como que um alheamento em relação ao fundo (o qual, indubitavelmente, exprime a sua filiação literária), demonstrando a abstracção da obra em relação à realidade concreta que rodeia o seu autor.

Os quatro retratos que mostrei são exemplificativos de concepções muito díspares do retrato. Will McBride quis mostrar a pessoa que coexiste no mesmo corpo que o estadista; Chargesheimer optou por transmitir visualmente a grandeza de um homem de dimensão imponente, mas no qual se pressente um lado obscuro; Jane Bown mostrou-nos como o rosto é suficiente para antever todo o mundo interior da pessoa retratada, enquanto Cartier-Bresson escolheu um retrato-ambiente, integrando a pessoa retratada num determinado meio ao qual pertence (embora distante dele). Todas estas concepções de retrato são igualmente válidas porque transmitem visões diferentes da pessoa retratada e interpretam a sua personalidade através de significações muito distintas.

Não foi meu objectivo comparar os retratos de maneira a estabelecer hierarquias de valor entre eles, mas antes mostrar como aquilo que parece elementar – fotografar o rosto de uma pessoa – pode ser feito de formas tão diferentes ao ponto de serem antagónicas. Todos estes retratos demonstram, sobretudo, a aptidão dos fotógrafos para transmitir impressões muito diferentes, nas quais souberam incluir, não apenas a sua visão da pessoa retratada, mas os seus próprios conceitos de fotografia e o modo como percebem a realidade. Estes são retratos que não se limitam a ser retratos.

M. V. M.

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