A arte do retrato

O retrato é uma das temáticas da fotografia que mais me fascina, quanto mais não seja pela minha total, comprovada e repetida inépcia para executá-la. É verdade – sou um desastre a fazer retratos. Numa tentativa recente de fazer retrato urbano, consegui a proeza de fazer com que uma miúda caboverdiana lindíssima parecesse um vampiro de um filme de terror de série B. Se isto não prova a minha incapacidade para fazer retratos, não sei que mais poderei dizer.

Em minha própria defesa, posso argumentar que a retratística é uma arte difícil que não se esgota em fotografar um rosto. Há muito mais num retrato que mostrar o rosto de uma pessoa. Os bons retratistas são os que mostram, não apenas o aspecto exterior da pessoa retratada, mas também – e sobretudo – o seu interior: a sua personalidade, a sua vida e também a forma como o próprio fotógrafo vê a pessoa retratada. Ao fazer um retrato, o bom fotógrafo está a revelar a personalidade do retratado e também a depositar na fotografia os seus pontos de vista sobre essa pessoa.

Para demonstrar esta minha teoria, escolhi os retratos de duas personalidades feitos por fotógrafos diferentes. Comecemos por Konrad Adenauer, chanceler da Alemanha entre 1949 e 1963: este homem foi, de longe, o maior estadista que a Alemanha conheceu. Foi com ele que a Alemanha se ergueu dos escombros da II Guerra Mundial e se tornou na potência que é hoje. Konrad Adenauer foi retratado inúmeras vezes, mas para este texto escolhi dois retratos de fotógrafos muito diferentes e que são muito mais do que meras descrições de um rosto. Um foi executado por Chargesheimer, sendo uma das suas fotografias mais famosas; o outro foi feito por Will McBride, um americano que viveu na Alemanha durante o seu período mais criativo.

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Konrad Adenauer por Chargesheimer

A verdade é que logo neste simples facto se notam as diferenças: Chargesheimer era alemão e era um apaixonado das artes – foi dramaturgo –, sendo um homem com ideais que colidiam com a doutrina democrata-cristã de Adenauer; Will McBride, não sendo alemão, via Adenauer como o estadista a quem reconhecia grandeza, mas era tão-só o Chanceler do país qua o acolheu. A visão de Chargesheimer é, deste modo, enformada por dois factores: o reconhecimento indubitável da grandeza de Adenauer, mas sombreada pelas diferenças de concepção do mundo, da vida e da sociedade que separavam os dois homens. Este retato faz com que Adenauer se assemelhe a uma estátua colossal, o que exprime a sua grandeza enquanto estadista, mas o sombreado, que faz do seu rosto quase uma silhueta, mostra-nos que Chargesheimer quis ilustrar uma penumbra à volta do seu chanceler; pressente-se, ao ver esta fotografia, algo de soturno e sinistro, como se Adenauer fosse o guardião de segredos nunca revelados.

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Por Will McBride

Outra diferença importante está nas poses. Em Chargesheimer vemos um Adenauer granítico, estático e, contudo, emanando uma força, um poder que não é mais que o reconhecimento da grandeza do chanceler. Em Will McBride, Adenauer surge com uma dimensão humana: é visível o cansaço e a tensão, como se McBride quisesse dizer-nos que, chanceler ou não, Konrad Adenauer era um homem com um peso incrível sobre os ombros. Ao mesmo tempo, porém, vê-se nele a inteligência e a sagacidade que fizeram de Adenauer um dos homens mais notáveis da Europa do pós-guerra. O olhar de Adenauer que Will McBride captou faz com que aquele pareça perdido em pensamentos de uma gravidade condizente com o seu cargo e do lugar que ocupava no mundo.

Graficamente, considero o retrato de Chargesheimer superior. A divisão da luz, com as altas luzes e as sombras perfeitamente divididas e jogando com as formas do corpo de Adenauer para formar linhas que dividem e estruturam a imagem, é perfeitamente demonstrativa do rigor a que há tempos aludi a propósito dos fotógrafos alemães, mas exprime muito mais que uma mensagem simplesmente estética. O retrato por McBride é mais conciso, mais objectivo, fazendo com que o olhar do espectador se concentre no rosto de Adenauer.

Como se vê, ambos os retratos exprimem visões muito diferentes da mesma pessoa. Contudo, ambos estes retratos são absolutamente espantosos. Demonstram que a retratística é muito mais do que fixar o rosto da pessoa retratada numa fotografia. Estes não são uns retratos quaisquer: são o repositório das ideias que os seus autores formaram sobre a pessoa retratada e transmitem as convicções e as formas distintas como ambos vêem, não apenas o retratado, mas o mundo. Chargesheimer e McBride deram-nos a sua visão pessoal de um homem que tem um lugar ímpar na história e fizeram-no de uma maneira que mostra muito mais do que um olhar desatento e impreparado pode perceber. Esta é a marca dos grandes fotógrafos – e, em especial, dos grandes retratistas.

M. V. M.

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