O facebook, a Magnum e o pénis de Doudou

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Não vou escrever sobre os atentados de Paris de 13 de Novembro. Não por lhes ser indiferente, mas por ter decidido que este blogue deve manter-se pertinente ao seu tema. Apenas digo que tenho a sorte de ser um homem com bons princípios que seria incapaz de tirar a vida a outrem, por mais fácil ou ponderoso que tal me pudesse parecer. Infelizmente, nem todos são assim. Que alguém lhes perdoe.

Este género de atentados costuma levantar uma litania de hipocrisia, e é precisamente desta última que me proponho escrever. A Magnum, a maior e mais importante entidade fotográfica à superfície da terra, promoveu vendas de fotografias de alguns dos seus cooperadores. Cada fotografia, enquadrada em papel na dimensão 15x15cm, custava €100, o que, convenhamos, é uma fortuna por fotografias tão pequenas. Contudo, alguns poderão ter entendido que valia a pena: a colecção chamava-se Up, Close and Personal e compreendia fotografias de momentos mais ou menos íntimos por fotógrafos que iam desde Werner Bischof e Eve Armold a Contantine Manos e Jacob Aue Sobol.

Por Bruno Barbey
Por Bruno Barbey

Muitas destas fotografias são simplesmente excelentes, como era porventura de esperar da cooperativa que Henri Cartier-Bresson e Robert Capa constituíram. Algumas dessas fotografias criaram em mim o desejo de tê-las. As que mais me impressionaram foram as de Raymond Depardon, Patrick Zachmann, Werner Bischof e Constantine Manos, mas a qualidade da colecção era de tal ordem que se torna mais fácil escolher as piores fotografias. De novo, não era possível esperar outra coisa da Magnum. E estou certo que as fotografias que possamos considerar as piores serão do agrado de muita gente de bom gosto.

Até aqui nada de novo. Não era previsível que fotografias de autores como Werner Bischof, Bruno Barbey ou Eve Arnold fossem más, ou que fossem vendidas a preço de saldo. O que podiam era ser um pouco maiores. Os problemas começaram quando a Magnum decidiu anunciar a venda no facebook. Caso não saibam, esta «rede social» cujos subscritores se despojam da sua inteligência antes de a frequentar tem uma política de bons costumes: não são permitidas imagens de nudez frontal. Ora, uma das fotografias que a Magnum vendeu – a venda terminou na Sexta-feira, dia 13 de Novembro – era um nu frontal da autoria do grande Herbert List. Uma fotografia de Doudou, que foi amante de Jean Cocteau. Sabemos que Herbert List era homossexual e que fotografou homens jovens em poses que podem ser consideradas homoeróticas, mas fazia-o com discrição e raramente fotografou nus. A fotografia de Doudou – que, de resto, tem um enquadramento absolutamente soberbo e é, do ponto de vista artístico, extremamente conseguida – é uma excepção.

A versão
A versão “family friendly” que a Magnum publicou no facebook

Sucedeu que, para poder anunciar esta fotografia no facebook, o pénis do Doudou teve de ser censurado. No seu lugar surge um rectângulo negro. Eu compreendo que a Magnum quisesse promover a fotografia e sei que obteve autorização da fundação que gere o património e direitos de Herbert List para publicar a versão censurada da fotografia, mas não deixa de ser absurdo ver uma fotografia desta qualidade horrivelmente mutilada – mesmo que seja no facebook, esse lugar onde as pessoas voluntariamente se privam de 95% das suas faculdades mentais e os 5% que restam são os piores.

Apesar do consentimento prestado e da necessidade sentida pelas pessoas da Magnum de promover esta fotografia, parece-me criminoso apresentar uma obra de arte assim transfigurada. Mais valia que a Magnum, uma cooperativa em cujo seio havia e há tantos amantes da liberdade que se bateriam até ao fim das suas vidas contra toda e qualquer forma de censura, se tivesse abstido de publicá-la no facebook. A política de censura desta «rede social» é completamente hipócrita, estúpida e digna de mentalidades retrógradas e reprimidas. Que tipo de pessoa poderia conceber que alguém se sentisse chocado ou traumatizado com a fotografia de Herbert List? Será que alguém imaginou que uma criancinha inocente poderia perder-se na luxúria e licenciosidade ao chegar a adulta por ter visto o pénis do Doudou?

Isto é tão ridículo que parece inverosímil, mas é verdade. Esta é a realidade do facebook. O próximo passo é, provavelmente, sobrepor rectângulos negros no peito das imagens da Vénus de Milo ou no sexo do David de Michelangelo. Ou, já que estamos a referir-nos a renascentistas italianos, usar o Photoshop para cobrir a nudez com véus, como nas pinturas dos tectos da Capela Sistina. Já agora, por que não tapar o sexozinho do Manneken Pis? Quem sabe quantos pensamentos pecaminosos estas visões podem provocar nas mentes sensíveis que frequentam o facebook…

Numa «rede social» na qual as pessoas escrevem as coisas mais reles que se podem imaginar, um nu artístico tem de ser censurado. Isto é grotesco. Isto é o facebook.

M. V. M.

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