Os nerds

Sony Alpha 7R II, o sonho dos nerds da fotografia (por enquanto)

Não sou o primeiro a dizê-lo, pelo que posso, com alguma segurança, excluir o risco de estar a proferir uma enormidade: a indústria fotográfica é movida, pelo menos quanto ao material mais evoluído, pelas exigências de alguns nerds que pululam pelos websites de referência, em particular o Digital Photography Review.

E como são exigentes, estes nerds. De cada vez que um fabricante lança uma lente com abertura máxima f/1.8, eles queixam-se que é demasiado lenta e exigem f/1.4; se o fabricante lhes dá ouvidos – o que, infelizmente, acontece com demasiada frequência – e lança a lente f/1.4 que eles pediram, queixam-se do preço. ISO? Só vão ficar satisfeitos quando um fabricante lançar um sensor capaz de 6553600. E mesmo assim vão querer mais – e mais barato. Disparo contínuo? Se uma marca anuncia 10 fotogramas por segundo, não chega; querem mais. Vídeo, só se for 4K – pelo menos enquanto não chegarem notícias sobre a viabilidade do 8K ou 16K (nessa altura vão reclamar 32K). Numa palavra: nunca estão satisfeitos. Se hoje um fabricante se atreve a lançar uma câmara com um sensor de 24 MP, recebe uma vaia universal – mesmo se esse for o melhor sensor do mundo.

Resumindo, a câmara dos sonhos destes geeks seria digital – evidentemente! –, teria um sensor full frame com 80 megapixéis, seria capaz de 80 fotogramas por segundo, teria uma sensibilidade 13107200 ISO, vídeo 8K, um tempo de exposição mínimo de 1/32000 e seria vendida por €150 com uma lente 18-800mm-f/0.95. E seria uma mirrorless com visor electrónico que não pesaria mais de 300g. Estou certo que a Sony vai produzir uma câmara assim dentro de três anos – ou menos. O que não posso garantir é que custe €150, pelo que os queixumes continuarão a fazer-se ouvir.

O que é estranho é que, apesar de ser manifesta a inanidade destes frequentadores de websites de fotografia, os fabricantes dão-lhes ouvidos. Aliás, é a eles que as marcas prestam mais atenção: mais que a sondagens, estudos de mercado ou análises de vendas. Provavelmente há gente paga para andar na internet a ver o que os nerds escrevem nos blogues e nos websites de fotografia. Percebem agora por que está a indústria fotográfica tão completamente descaracterizada?

Até ao início deste século, os avanços tecnológicos eram impostos pelas necessidades dos consumidores; agora são determinados por gente que vai para a internet debater câmaras que nunca comprará, munida de falsos conhecimentos que se fundam no que dizem outros «foristas» tão mal informados como eles. O resultado disto é o que se vê hoje: câmaras concebidas para durar dois anos, porque ao fim desse tempo já estão obsoletas por terem sido substituídas por modelos com mais um EV de ISO, ou mais dois megapixéis. O resultado disto é câmaras carregadas de funcionalidades inúteis que têm por destino a reciclagem ao fim de pouco tempo, mas agradam a um público que aprecia câmaras pelas suas especificações técnicas. O facto de estas pessoas usarem as suas câmaras para fotografar os seus gatos ou, na menos patética das hipóteses, paisagens iguais a biliões de outras, não obsta a que os fabricantes lhes dêem ouvidos.

Curiosamente, as vendas de câmaras digitais continuam a diminuir. Isto deve-se, evidentemente, ao facto de as pessoas comuns se terem apercebido que não precisam de câmaras para fotografar porque basta-lhes ter um telemóvel, mas também não tenho dúvidas de que essa diminuição se deve ao elevado preço que as câmaras evoluídas têm hoje. Poderíamos pensar que não teria de ser assim; que a concorrência faria os preços descer, mas se isto é verdade quanto às câmaras baratas e de gama média, um factor perverso impede que aconteça o mesmo quanto às franjas mais elevadas do mercado: a incorporação de novas tecnologias, aliada à renovação constante das câmaras, impede que os custos de investigação e desenvolvimento sejam amortizados em tempo útil. Os investimentos são de tal ordem que não há tempo para que sejam amortizados. Quando estas câmaras finalmente atingem preços aceitáveis, estamos já nas vésperas do lançamento do modelo que vai substituí-la. Não surpreende, por tudo isto, que vendam pouco, mas os fabricantes são suficientemente tolos para pensar que os nerds que pululam na internet vão comprar as câmaras sofisticadíssimas que foram concebidas a pensar neles. Oh well.

M. V. M.

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