A importância do material

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Fica sempre bem dizer-se que o conteúdo deve prevalecer sobre a forma; que se sabe distinguir o acessório do essencial e que o que importa é a substância das coisas. Tudo isto é bom e certo, evidentemente. Dizer o oposto é ser frívolo, fútil, superficial.

Isto aplica-se frequentemente na fotografia; dizem-se coisas como «o que importa não é a câmara, mas o fotógrafo», ou «o que importa é a mensagem», ou ainda «a melhor câmara é a que trazes contigo». Tudo isto é muito certo e justo, mas tem um pequeno inconveniente: é tudo falso, menos a prevalência da mensagem.

A negação sistemática da importância do material fotográfico é, além de um sintoma de mediocridade pelo qual alguns procuram justificar e legitimar a ausência de qualidade dos seus esforços, uma enormíssima falácia. É esquecer que o fotógrafo é um entusiasta que aprecia todas as vertentes do fenómeno fotográfico – entre as quais está, evidentemente, o equipamento.

Vamos estabelecer uma analogia e supor que estamos diante de alguém que gosta de conduzir; isto é, que aprecia automóveis e é dotado de perícia para conduzir um automóvel com destreza e rapidez. Experimentemos dizer a essa pessoa que o que é importante, na condução, é partir de um lugar e chegar a outro e que, por essa via, se retira tanto prazer de conduzir de um Nissan Pixo como de um Ferrari. O mais provável é que esse condutor se refira a quem faz estas asserções como um idiota. E não é caso para menos.

Fotografar não é apenas fazer imagens. Se o fosse, qualquer um podia arrogar-se o título de fotógrafo. Fotografar com verdadeira intenção implica um envolvimento profundo com a câmara que se usa; implica conhecê-la, tornar-se familiar com ela até atingir um ponto em que a máquina se torna uma extensão dos olhos e das mãos. Implica, sobretudo, tirar partido dela e saber exactamente o que ela pode e não pode fazer. Quando se tem este tipo de envolvimento com a fotografia, é natural que o equipamento adquira importância.

É evidente que o equipamento, por si só, não faz a fotografia. Há aspectos do acto de fotografar que dependem de quem fotografa. A escolha do motivo, a composição e o enquadramento são relativamente alheios à escolha do material que se vai usar, mas este não deixa de ter implicações naquelas opções. Se estamos a usar uma lente grande-angular, as possibilidades de fazer uma boa fotografia de uma ave em pleno voo são extremamente diminutas, tal como fotografar o interior de um imóvel com uma teleobjectiva pode ser problemático. Nestas circunstâncias, negar a importância e utilidade do material fotográfico não passa de um disparate.

Acresce que, com o tempo, o relacionamento do fotógrafo com a sua câmara (ou câmaras) vai-se aprofundando; a câmara acaba, inevitavelmente, por adquirir um valor de estimação. Torna-se na companheira de aventuras fotográficas. Não é aconselhável incorrer em exageros e colocar o equipamento como fim em si, ou nutrir uma idolatria febril por uma marca, mas a verdade é que os fotógrafos acabam quase sempre por encarar as suas câmaras como muito mais que meras máquinas (ou pequenos computadores que tiram fotografias, como são as câmaras digitais). Querem iniciar uma conversa de horas com um fotógrafo? Suscitem o tema equipamento.

Por outro lado, equipamento novo pode renovar o entusiasmo pela fotografia. Para quem fotografa há muito com intenção criativa, torna-se cada vez mais difícil encontrar motivos novos; por vezes parece que já se fotografou tudo e a desmotivação instala-se insidiosamente. Uma mudança de equipamento pode ser tudo o que é necessário para reavivar o entusiasmo. Não por causa do equipamento em si, mas porque este pode implicar uma maneira muito diferente de fotografar. Quando experimentei a Zenza Bronica, senti que, apesar de ser uma máquina fotográfica de película tal como a minha Olympus OM (mas consideravelmente mais substancial!), me obrigaria a uma maneira de fotografar inteiramente diferente: as próprias sensações induzidas pelo manejo da câmara, como o peso e o conforto de utilização, são muito diversas – tal como o seria fotografar com uma relação de aspecto diferente, com as exigências de composição e enquadramento que tal implicaria, e com uma qualidade que não pode ser comparada à dos modestos rolos 135.

Eu não posso, de maneira nenhuma, esperar que uma pessoa que tira fotografias a torto e a direito com um telemóvel entenda isto. O equipamento não é, evidentemente, o mais importante, mas conta. Desde que não se caia na desmesura do GAS (*), é uma parte importante e saudável deste hobby. Não vejo por que negá-lo.
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(*) GAS: Gear Acquisition Syndrome

M. V. M.

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