Zenza Bronica e eu

Não, «Zenza Bronica» não é o nome de uma actriz e modelo eslovena. É uma marca de equipamento fotográfico que, no seu tempo – o último modelo cessou produção em 2005, já depois da aquisição da empresa pela Tamron –, era uma das mais reputadas e procuradas por profissionais. Não faço a menor ideia do que significa «Bronica» (não é certamente a alcunha de uma Mónica que gosta de broa), mas «Zenza» é metade do nome próprio do fundador da marca, Zenzaburo Yoshino (1911-1988). A Zenza tornou-se conhecida pelas suas máquinas de médio formato, especialmente as de configuração SLR de visores intermutáveis, que tanto podiam ser usadas com um conjunto pentaprisma-visor como ao nível da cintura, à maneira das TLR. Uma das razões por que a Zenza se tornou tão reputada era a qualidade das suas lentes, que eram encomendadas à Nikon (sim, as lentes Nikon são as melhores que se podem adquirir, logo a seguir às Leica e às Zeiss alemãs).

Por que estou eu a escrever sobre a Zenza Bronica? Pois bem: ontem tive um breve flirt com uma máquina analógica de médio formato desta marca, em concreto a ETR-Si. É uma máquina inteiramente modular: ao corpo de forma quadrada, que contém o espelho, a baioneta, os comandos da exposição e o mecanismo de avanço da película, acrescenta-se uma cassete para rolo 120, um visor (ou conjunto pentaprisma-visor) e, opcionalmente, um punho. Este último era, provavelmente, a última palavra em automação no seu tempo: ao montá-lo, um mecanismo acopla ao do avanço da película existente no corpo, substituindo a manivela por uma patilha accionada pelo polegar, e inclui o botão do disparo e uma sapata de flash com contactos electrónicos (hot shoe).

Foi exactamente ao experimentar uma destas máquinas, equipada com punho, que percebi que tinha de ter uma Zenza Bronica ETR-Si. Pode ser feia, com as suas linhas quadradas pseudo-hi-tech típicas dos anos 80, mas tê-la nas mãos faz esquecer tudo o resto. A ergonomia desta máquina, com o punho montado, é simplesmente excelente. Decerto, esta é uma máquina avantajada e pesada, mas a sua ergonomia supera estes inconvenientes. É uma daquelas máquinas que caem perfeitamente nas mãos. Algumas pessoas preferirão enquadrar com a máquina ao nível da cintura, como as TLR, usando o visor alternativo, mas elevar a máquina ao nível dos olhos e espreitar o visor com o olho direito parece-me tão natural que nem consigo conceber outra forma de visualizar a cena.

O visor é espantoso. O exemplar em que peguei tinha alguma sujidade, mas esta foi a prmeira máquina que experimentei na qual as dimensões dos objectos vistos através de uma lente normal – neste caso uma de 75mm – correspondem exactamente à sua dimensão real. E, embora a percepção da profundidade de campo seja enganadora nas máquinas equipadas com espelho e pentaprisma, o desfoque do plano de fundo pareceu-me simplesmente excelente, tal como a nitidez.

A sensação que ficou em mim foi a de que havia experimentado uma máquina séria, que reduz todas as demais (pelo menos as de formato inferior) à condição de brinquedos. Deve notar-se que esta máquina, que é flagrantemente inspirada na Hasselblad 500 C/M, tem um fotómetro incorporado no visor de pentaprisma, pelo que não é necessário um fotómetro externo nem fazer cálculos complicadíssimos para converter os valores da abertura e do tempo de exposição em EV’s, como aqueles a que o uso de uma Hasselblad obriga. A forma natural como se segura esta máquina, a claridade do visor e o facto de ser uma máquina de médio formato – com o acréscimo de qualidade que os rolos 120 implicam – fizeram nascer em mim o desejo de adquirir uma.

E quem sabe se usar esta máquina não me faria renascer o entusiasmo pela fotografia, que anda um pouco mitigado ultimamente. A fotografia tem assumido um papel menos que secundário na minha vida, já que todos os meus esforços se concentram presentemente na carreira; de resto, sempre que vou fotografar fico com a sensação de que vou acabar por fazer fotografias iguais às que já fiz. Talvez esta máquina me deixasse um pouco menos blasé. Quem é que estamos a tentar enganar quando afirmamos que o equipamento não é o mais importante e que o que conta é a mensagem da fotografia? (Mmmm… eis um bom tema para um dos próximos textos!)

M. V. M.

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