Simplificar

Por Ray K. Metzker
Por Ray K. Metzker

Há uma enorme confusão quanto aos requisitos técnicos para fazer boas fotografias. Essa confusão é completamente desnecessária. Os websites de fotografia inundam os leitores com conhecimentos supérfluos que mantêm estes últimos aprisionados em conceitos supérfluos, imaginando que têm de dominar uma ciência complexa para tirar partido das suas câmaras (e imaginando que estas, e o seu domínio, os habilitam a fotografar bem).

Há, deste modo, uma espécie de nevoeiro intenso que impede de se ver as coisas com claridade. Fotografar não tem de ser complicado e esses pseudo-conhecimentos que as pessoas adquirem na internet são, na maioria dos casos, completamente desnecessários. À parte ter a visão necessária e a criatividade para fazer boas fotografias, o que é necessário saber é relativamente pouco. Eu não vou dizer que a visão e a criatividade são suficientes e que qualquer coisa que dispare serve perfeitamente para fazer boas fotografias: há muita gente para quem isso não basta e, de resto, é difícil ser criativo quando não se pode controlar uma câmara: nestes casos é a câmara que se está a substituir ao fotógrafo na escolha das técnicas que permitem exprimir melhor a intenção criativa – ou, o que é mais frequente, a retirar-lhe qualquer escolha.

Por outro lado, a técnica, só por si, não é garantia de fazer fotografias criativas. O facto de alguém saber as aritméticas todas de uma câmara, mais os perfis ICC e essas coisas todas, não significa que seja capaz de fotografias interessantes. Se tal conhecimento não for acompanhado pela criação e originalidade, o normal é que essas fotografias redundem em clichés.

O melhor é mesmo varrer da mente todos os pretensos conhecimentos. Eles não são necessários. Como Mike Johnston escreveu numa entrada do The Online Photographer que quase ninguém entendeu, «a luz é tudo o que alguma vez fotografaremos». Este é o único conhecimento de que verdadeiramente necessitamos: fotografar é captar luz.

Essa luz, por seu turno, atravessa dois instrumentos óptico-mecânicos antes de ser registada numa superfície sensível: uma vez entendido o conceito de que a fotografia é a captura de luz, torna-se necessário compreender como ela é transformada quando passa por esses instrumentos, que são a lente e o obturador. Isto é de uma simplicidade quase infantil: a quantidade de luz é tanto maior quanto mais ampla for a abertura e menor a velocidade a que as cortinas ou lâminas do obturador se movem. E vice-versa.

Deste modo, o que é importante para dominar a técnica fotográfica é compreender como interagem os valores da abertura e os tempos de exposição. A fotografia digital veio dar mobilidade a um outro valor que anteriormente era fixo – pelo menos durante um número determinado  de exposições –, pelo que também é importante entender como os valores referidos anteriormente se relacionam com a sensibilidade do sensor. Estes valores funcionam entre si numa relação de reciprocidade: quanto maior for a abertura, menor terá de ser o tempo de exposição e vice-versa. Entender isto é importante, porque pode-se usar estes valores em benefício da criatividade, mas a sua importância termina aqui. Aprofundar para além disto é supérfluo.

Entendidas estas variáveis, o fotógrafo compreenderá que, se usar um tempo de exposição mais lento, poderá obter um efeito criativo que é o arrastamento, mas este conhecimento não tem de ser aprofundado nem tem de se fundar em equações. É muito simples: no exemplo mencionado, o fotógrafo deverá ter em mente que, para aumentar o tempo de exposição, terá também de estreitar a abertura.

Poderão contrapor que o domínio dos valores da abertura e da exposição é demasiado complexo para alguns, mas não é: na verdade, este é um tipo de conhecimento que não resiste a dez minutos de reflexão. Quem não quiser maçar-se com isto pode fotografar aceitavelmente, mas dificilmente perceberá como certas fotografias são feitas.

Um professor que muito prezei dizia que as pessoas inteligentes são as que resolvem os problemas difíceis pelos meios mais simples. Simplificar, no caso da fotografia, é essencial. Compreender a exposição é, na verdade, tudo o que é preciso saber para dominar a técnica fotográfica. O resto vem por acréscimo e não é verdadeiramente importante.

M. V. M.

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