Do dizer (pouco ou muito)

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Por Paulo Nozolino

«Com a idade, vamos fotografando menos, já vimos muitas coisas.»

Está explicado. Eu pensava que o que me levou a fotografar tão pouco nos últimos tempos – a ponto de me interrogar se o meu entusiasmo pela fotografia estava a desaparecer –, era falta de inspiração ou de motivação. Não é, afinal.

O autor da frase com que este texto começa é Paulo Nozolino, fotógrafo português do íntimo e pessoal que o Público entrevistou para a revista 2 de ontem, 4 de Outubro. A entrevista completa pode ser lida aqui; em papel a entrevista é menos extensa, mas vale a pena dar um salto até ao quiosque mais próximo, a ver se ainda é possível encontrar a edição de ontem, 4 de Outubro, do Público, só para ver as fotografias em papel, o que lhes dá uma dimensão que o ecrã do computador lhes rouba miseravelmente. Nesta entrevista ficamos a saber, por exemplo, que Nozolino tem horror ao digital e que «…a fotografia existe quando tem uma prova em papel». Eu talvez não fosse tão longe, mas é verdade que ver fotografias no computador não é a experiência fotográfica real.

http://imagens1.publico.pt/imagens.aspx/985911?tp=UH&db=IMAGENS
Por Paulo Nozolino

Tergiverso. Não é bem isto que quero referir. É mais sobre a fotografia ser algo que se tem a dizer. É uma forma de expressão e exprimir-se é ter algo a dizer, mesmo quando não se usam palavras. Ora, o que há a dizer quando, aparentemente, já tudo foi dito? Já fotografei o suficiente para determinar o que me interessa ou não fotografar; deste modo, cingi o meu campo de interesses a três ou quatro tipos de cenas e a um estilo – o preto-e-branco das películas. Fiquei com um universo de motivos algo restrito, o que interpretei como saturação, mas é de novo Paulo Nozolino que me ajuda a entender melhor o que estou a passar: «Não me sinto nada saturado. O que se vai tornando difícil é saber o que se quer dizer com as fotografias que se fazem.»

É isto: estou numa fase em que quero que as minhas fotografias signifiquem alguma coisa – e alguma coisa que seja relevante. Dentro do que costumo fotografar, está a tornar-se difícil ter algo de novo a dizer. Daí o fotografar tão pouco. É cada vez mais reduzido, no meu pequeno universo fotográfico, o número de coisas que ainda não tenha fotografado, mas isto não quer dizer que não as haja: o que preciso é de descobri-las.

Um bom exemplo foi o da viagem a Bruxelas. Não lamento assim tanto não ter exposto os dois rolos que levei fotografando a cidade, porque é possível que apenas houvesse uma mudança de cenário e as fotografias fossem essencialmente idênticas às que faço no Porto ou em Lisboa. Contudo, enquanto estive nos aeroportos, descobri cenários interessantes e fiz fotografias que ainda não tinha feito, pelo que não foi em vão que levei a máquina comigo.

Outra afirmação interessante nesta entrevista com Paulo Nozolino é a seguinte: «Nunca fui de fazer fotografia só para carregar no botão. Tem de significar alguma coisa». Esta é, infelizmente, uma conclusão a que cheguei demasiado tarde. Desperdicei – e penso que, se for honesto comigo mesmo, devo dizer que continuo a desperdiçar – muitas fotografias, ao fotografar coisas que não têm nenhum interesse. Coisas que não dizem nada a ninguém. Aprendi a ser selectivo, mas ainda não sou tanto como gostaria. Talvez o fotografar tão pouco signifique essa selectividade está agora mais aperfeiçoada, quem sabe?

Fotografar é como dizer algo. Podemos dizer apenas o que entendemos pertinente ou tagarelar infinitamente e ser maçadores. Também aqui é necessária uma aprendizagem para se poder seleccionar o que é importante dizer e o que não é. Felizmente, ler palavras como estas de Paulo Nozolino que transcrevo aqui deixa-me com a convicção de que a minha aprendizagem está a tomar o caminho certo e que estou a seguir o exemplo dos melhores. Não preciso de me preocupar se fotografo pouco: é apenas um sinal que estou a ser criterioso na escolha do que quero fotografar. Por vezes posso passar uma sessão fotográfica sem fazer nenhuma fotografia: é porque não vi nada que valesse a pena dizer, não por falta de inspiração.

M. V. M.

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