Coração da Europa, parte 2

Imagem: Wikimedia Commons

Bruxelas é uma cidade para se viver e para se trabalhar. Para se viver: não é uma cidade para turistas. Por algum motivo – talvez por ser uma cidade cara, pelo menos para quem frequentar restaurantes –, não há muitos turistas em Bruxelas. Há, decerto, muitos estrangeiros, mas isto é por as instituições da União Europeia, com excepção do Parlamento (que é em Estrasburgo, mas mesmo assim a maioria dos seus serviços funciona em Bruxelas) funcionarem todas nesta cidade. Para viver, também, porque é uma cidade que, além de bonita, é agradável: é uma cidade onde ninguém se pode perder, porque é tão organizada que nunca falta algum meio de se chegar ao destino: os transportes públicos são excelentes, as artérias estão bem anunciadas (sempre com os nomes em francês e holandês, porque é uma cidade bilingue) e não é muito grande. Agradável, também, por ser uma cidade com um nível de vida muito elevado onde nada falta: desde as lojas mais cosmopolitas até uma programação de espectáculos que assegura que nunca haja uma noite de pasmaceira. O facto de haver tantos estrangeiros significa que existem pubs irlandeses, restaurantes italianos e snack-bars libaneses. Entre outros estabelecimentos abertos por pessoas que quiseram implantar um bocadinho do seu país em Bruxelas. (Há um restaurante português, o Tiagos, na zona de Schuman, mas é caro e quem por lá passa vê uma ementa constituída por pratos italianos. Quem quiser comer rojões que os faça em casa!)

E é uma cidade para trabalhar. Não por não haver mais nada para fazer, mas porque o ambiente é excelente para se trabalhar. Além de se ganhar bem, as condições para trabalhar são excelentes. O resultado da conjugação destes factores é que as pessoas andam nas ruas com um ar atarefado, mas raramente se vê pessoas tensas. As pessoas andam bem dispostas e bem vestidas, sendo evidente que Bruxelas obedece a dress codes: os homens usam fato, as mulheres vestem mais livremente mas com uma paleta de cores limitada. Ao contrário dos alemães, que são em regra de um mau gosto indescritível, os belgas vestem bem: sem ostentações, mas bem. Eles sabem que estão no coração da Europa e são parte da imagem desta última.

A vida em Bruxelas é tudo menos monótona. Os belgas (ou melhor: os bruxelenses) gozam bem a vida. Quando faz bom tempo, aproveitam para gozá-lo em qualquer dos muitos parques que existem na cidade; adoram fazer jogging e andar de bicicleta, frequentam pubs e restaurantes e vão a concertos e exposições. Vivem numa cidade ordenada e seguem regras estritas mesmo no seu quotidiano: nas escadas rolantes, deve estar-se no lado direito, para permitir a passagem aos mais apressados; nos restaurantes e outros estabelecimentos, quem chega senta-se para ser servido: não se pede ao balcão; no trânsito, intenso mas nunca caótico, os condutores dão sempre passagem aos peões nas passadeiras e nunca buzinam a não ser que seja necessário (se se ouvir buzinar insistentemente é porque o condutor é português, espanhol ou italiano). Contudo, os bruxelenses são afáveis e acolhedores: os imigrantes integram-se facilmente na vida desta cidade.

E são muitos, os imigrantes. Em Bruxelas vêem-se mais estrangeiros do que belgas. O meu último jantar foi num snack libanês na Rue des Celtes, perto da Praça Mérode. Como havia um festival importante no parque Cinquantenaire, que fica nas imediações, o estabelecimento estava lotado. Eu esperava por uma mesa vaga, mas a mesa que vagou era para quatro pessoas. Convidei um casal de jovens a sentar comigo, este por sua vez convidou outra pessoa: deste modo, na minha mesa estavam um português, uma espanhola, um francês e um belga. Mais internacional que isto é impossível.

A minha estadia em Bruxelas apenas teve o defeito de ter sido demasiado curta e não me ter dado tempo para conhecer melhor a cidade e as pessoas. No último dia, quando saí do quarto no Boulevard Brand Whitlock, senti uma comoção estranha: não me apetecia voltar a casa. Sabia que ia voltar para um país pobre, rude e embrutecido. Queria ficar lá – e, se tudo me correr bem, vou alegremente, e sem olhar para trás ou hesitar, viver em Bruxelas, no coração da Europa. Nessa altura, talvez arranje tempo para conhecer melhor Bruxelas – e fotografar!

M. V. M.

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