Coração da Europa, parte 1

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Aqui estou eu, mais o Número f/, de volta após a viagem a Bruxelas. Deixem-me começar por resolver duas questões prévias: a primeira é que os testes correram razoavelmente bem. Houve provas em que tive um desempenho melhor que noutras e uma que correu espectacularmente bem. (Espero que seja esta última a que tem maior peso na avaliação…) A outra é que não tive tempo de fazer fotografias. Os testes ocuparam-me a quase totalidade de Quarta e Quinta-feira e nos dias anterior e posterior não houve muito tempo, pelo que mal pude conhecer a cidade – quanto mais fazer fotografias. De resto, não era importante: eu fui a Bruxelas para fazer testes, não para fotografar.

Como caracterizar Bruxelas? Como posso descrever uma cidade que, apesar de a ter habitado por apenas quatro dias, me deixou com vontade de chorar no dia em que tive de voltar ao Porto? Comecemos pelas impressões visuais: quando se sai das estradas suburbanas que ligam o Aeroporto de Zaventem ao centro da cidade – até aí a paisagem é típica de subúrbio, embora sem o caos de Lisboa –, descobre-se uma cidade bonita. Bruxelas tem uma arquitectura muito típica e homogénea (exceptuados alguns mamarrachos, que também os há) que consiste, essencialmente, em casas estreitas e altas, com fachadas de tijolo vermelho, ornadas com tijolos alternados de cor branca ou bege à volta das portas e janelas. Há avenidas residenciais em que praticamente todas as casas são assim, o que confere à cidade um ar homogéneo, mas nunca monótono. Podemos pensar em Bruxelas com Lisboa ou Madrid em mente, porque todas estas são estruturadas da mesma maneira: um centro histórico do qual irradiam avenidas largas que expandem a cidade. Exceptuados os subúrbios, a zona mais desinteressante é aquela a que chamam «Schuman», onde estão as instituições e os organismos da União Europeia (e onde prestei as minhas provas) em edifícios de uma arquitectura que se pretende vanguardista mas hoje estão decididamente datados. O Edifício Berlaymont, sede da Comissão, não é imponente, não é bonito nem é sequer agradável de se ver: quando se olha para ele apenas se consegue pensar na dimensão burocrática da União Europeia. (Há, a propósito, quem o apode de Berlaymonster.)

Fora isto tudo é beleza em Bruxelas: Etterbeek, dominada pela Praça Mérode, tem o charme das grandes capitais europeias: é cosmopolita e um lugar extremamente agradável para se passear. A zona onde fiquei pertence à comuna de Woluwe Saint-Lambert e é eminentemente residencial; sobre Schuman já escrevi, mas o que vi na Quarta-feira de tarde, quando eu e um colega (de profissão e de testes) resolvemos fazer de turistas no fim dos testes desse dia, vai ficar na minha memória e no meu coração para sempre: é a Grand-Place. Não consigo pensar em nenhum local mais bonito que este: já estive em Veneza e a Piazza San Marco não é tão bela como a Grand-Place (ou Grote Markt, já que a cidade é bilingue); é mais imponente, mas a praça de Bruxelas tem algo inefável que torna a San Marco fria e distante: é um lugar acolhedor, onde nos sentimos bem e onde podemos ficar horas sem nunca nos cansarmos de estar ali. «Bela» é um adjectivo inepto, claramente insuficiente para caracterizar a Grand-Place.

Houve lugares que tive pena de não ter podido conhecer. Não vi o Atomium – provavelmente ter-me-ia deixado tão indiferente como o Berlaymont – e, sobretudo, não consegui descobrir o quartier onde as paredes estão ornadas com graffiti evocativos da banda desenhada. Interessava-me tê-lo visto: a banda desenhada de origem belga é uma das minhas paixões infanto-juvenis. Eu cresci a ler a revista Tintin e mais tarde as aventuras de Spirou e Fantásio pelo André Franquin, que por seu turno me levou à idolatria que nutro pelas histórias de Gaston Lagaffe. Penso até que o meu gosto pelo automobilismo tem a sua origens nas aventuras de Michel Vaillant, por Jean Graton (embora este seja francês, e não belga, as suas histórias eram publicadas no Tintin). (Continua)

M. V. M.

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