Danado

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Continuo sem perceber a maneira como as pessoas vêem as minhas fotografias. Algumas – um número substancial delas, para ser justo – percebem o que quis exprimir; outras não. O que me deixa confuso, porque nunca procurei dar significados ocultos às minhas fotografias. Pelo contrário, a maior parte delas pode ser vista como só estética, mensagem zero. É verdade: as minhas fotografias vivem essencialmente da composição. Muitos percebem isto, felizmente; outros não.

Tudo isto vem a propósito de um comentário a uma fotografia que publiquei no Flickr há alguns dias. A fotografia, como se pode ver na imagem acima, consiste, no essencial, em três grandes portadas e numa pessoa sentada numa delas. O que eu quis, com esta fotografia, foi obter uma composição em que as três portadas dominassem visualmente o enquadramento. Claro que a pessoa é importante, mas quis, deliberadamente, que ela surgisse pequena no enquadramento. Porquê? O que me interessou foi a vetustez da rua, em primeiro lugar. Depois, porque me agradou o contraste entre a antiguidade do cenário (tive o cuidado de incluir o gradeamento e um pouco do empedrado para reforçá-la) e a juventude da rapariga; mas quis também que as linhas da composição orientassem na direcção da pessoa, cujo espaço diminuto no enquadramento também tem um significado. Não vou explicitar qual, porque essa é tarefa de quem vê a fotografia. De resto, gosto de jogar com composições excêntricas quando fotografo pessoas em cenários como este: gosto de colocá-las longe do centro da imagem e fora das intersecções das linhas da regra dos terços. Ora, isto só funciona se a pessoa não ocupar demasiado espaço na imagem.

Deste modo, a fotografia está tal e qual como a concebi quando vi a cena e a enquadrei no visor. A minha intenção não era (apenas) mostrar a rapariga, mas houve quem entendesse que sim. O tal comentário sugeria que a rapariga tinha aquela dimensão na imagem porque eu não tive coragem para me aproximar mais. Eu não vou ser rude, pelo que me abstenho de exprimir aqui o que me passou pela mente quando li esse comentário; tudo o que se me oferece dizer é que o seu autor não percebeu a fotografia. Provavelmente não percebe fotografia nenhuma a não ser que seja muito óbvia e pensa que, se aparece uma pessoa no enquadramento, é porque a fotografia se centra nela e pretende descrevê-la (mostrá-la, representá-la). No meu caso, nada mais errado.

Isto lembra-me uma das fotografias do meu primeiro rolo, que era um retrato cuidadosamente composto de um amigo que a pessoa responsável pela revelação e impressão decidiu cortar, de maneira a que o rosto do retratado dominasse por completo o enquadramento. Este tipo de estreiteza mental deixa-me um pouco agastado: é um choque descobrir que há pessoas que têm apreciações tão superficiais de uma fotografia. Se está uma pessoa no enquadramento, ela é o motivo da fotografia, ponto final. Quem faz comentários desta natureza não percebe as minhas fotografias (o que não é grave, porque não são exactamente obras-primas), mas também nunca compreenderá as fotografias cénicas (digamos assim) de Rui Palha e muitas de fotógrafos como Cartier-Bresson.

Se a rapariga aparece pequena na imagem foi porque quis assim. Se eu entendesse que esta era uma fotografia falhada porque não consegui dar à pessoa a dimensão correcta, tê-la-ia eliminado ou, pelo menos, nunca a teria publicado. Eu gosto de dar um contexto cénico às pessoas quando as fotografo: considero que o plano de fundo é essencial nas minhas fotografias. Vou mais longe: por vezes é o mais importante e as pessoas não são mais que meros figurantes. Se eu quero que a pessoa seja o principal motivo de interesse, fotografo-a de maneira a que o fundo tenha uma intervenção discreta na composição. Felizmente, não sou tão inapto para fazer retratos como cheguei a pensar e não tenho qualquer problema em pedir a uma pessoa para fotografá-la; simplesmente, esse não é o meu género de fotografia preferido: eu gosto de dar um contexto às fotografias e gosto que, por vezes, o contexto se sobreponha ao próprio motivo (ou àquilo que aos olhos dos outros pode ser visto como sendo o motivo).

Uma coisa é certa: ninguém vê fotografias minhas em que eu não tenha sabido exprimir o que pretendia, pela razão muito simples de que não as mostro. Uma fotografia em que não me tenha sabido exprimir convenientemente é uma fotografia falhada; o seu destino não é o Flickr ou o Número f/, mas o caixote do lixo virtual do computador. Se essa minha expressão tem algum interesse para quem vê as fotografias é uma questão diferente: aceito que não gostem das minhas fotografias. O que me custa aceitar é que não saibam vê-las como deve ser. Ou que não saibam de todo ver fotografias.

M. V. M.

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